sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tão velho


Imagem: Rudy Trindade

Quando cheguei da Europa e comecei a mostrar as fotos, tudo fez sentido. O coliseu, a fontana de Trevi, aqueles monumentos todos não significavam nada quando eu olhava para eles. Eram apenas velharias com nomes pomposos. Mas agora havia um brilho nos olhos dos meus amigos, uma curiosidade sincera sobre o que eu tinha visto, ouvido, comido. Meu prazer de narrar também era verdadeiro. Eu falava: sabe quantos anos tem esse castelo? Quatrocentos. Todos os castelos tinham quatrocentos anos para mim, e era gratificante dizer que o pão da Europa era horrível e que nossa pitsa é bem melhor que a dos italianos. Eu ia falando aquelas frases e acreditando nelas. Aos poucos fui percebendo que tinha viajado por eles, tinha passado doze horas no avião, perambulado por capitais, balbuciado três idiomas, dormido em quartos com cheiro de mofo, só para ter o prazer de contar, de ser o centro das atenções por alguns minutos, de ver aqueles olhos aspirando o brilho das fotos e pedindo mais. Sim, da Europa, eu tinha provas suficientes. Sorrisos, paisagens, restaurantes, monumentos: eu estive lá, e meus amigos agora sabiam disso! Mas de repente, passando os eslaides, me deparei com aquela paisagem de Torino. Não era nada, apenas um mar reluzindo o amanhecer. Fiquei alguns segundos em silêncio. Alguém disse: isso eu vejo todo dia aqui no Brasil! Houve uma risada geral. Eu também ri, com estardalhaço, com exagero, com convicção. Acho que consegui disfarçar a enorme agonia que aquela foto me suscitava. Lembrei aquela manhã na costa de Torino quando eu me senti completamente sozinho, quando enxerguei, como num espelho, a palidez apavorante da minha solidão. Como explicar aquilo aos amigos? Como falar do único momento em que tudo me pareceu claro e ao mesmo tempo estúpido, descartável, infinitamente irrelevante. Estão vendo a torre dessa igreja? Deve ter pelo menos quatrocentos anos, rebati, tentando me livrar do constrangimento. E aquele passarinho ali, perguntaram? Será que também é tão velho? Não, o passarinho... não deve ser tão velho... mas a essa hora já deve ter morrido.


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