terça-feira, 24 de novembro de 2009

Tema de Frank (ou o avesso da verdade)

Performance: Renata Mafra



Quando a conheci, ela estava bebendo um Dry Martini e lendo um livro do Gregory Corso. Costumava aparecer às segundas, às vinte horas e trinta de cinco minutos. Pontual e exata como não costumava ser em sua vida. Sempre vestia preto e usava os cabelos presos num rabo de cavalo desalinhado. Sentava num banco junto ao balcão, pedia sua bebida e, calmamente, lia o jornal. Às vezes parava de ler e conversava um pouco com o barman. Depois, riam um pouco, ela pedia outro Dry Martini e olhava em volta. Um dia veio falar comigo, segurando firmemente seu copo meio cheio, meio vazio.


Eu estava pensando... - ela disse, indiferente como num filme francês - preciso esquecer algo que me aconteceu hoje, e estava aqui pensando que talvez você seja a companhia perfeita para isso.

Sentou-se à minha frente, respirou profundamente e bebeu dois goles de seu Dry Martini. Ela sabia. Eu já estava em suas mãos e mais cedo ou mais tarde teria que me abandonar. Sofria de um tédio incomum, anormal, sombrio.

O que aconteceu hoje que você quer esquecer?

Eu quero esquecer. Se você me perguntar, vou embora. Quero esquecer. Só preciso lembrar disso amanhã.

Lembrar de quê?

De que hoje consegui esquecer.

E o que eu posso fazer pra você esquecer?

***

No dia seguinte ela me acordou gritando. Gritou no meu ouvido, enlouquecida, como se estivesse cortando seu corpo com uma faca afiada, como se cortasse seu dedo indicador e o deixasse de lembrança para mim. Gritou durante minutos. Ou, pelo menos para mim pareciam eternos minutos, devastadores para os tímpanos e minhas relações com a vizinhança.

No meio de seus berros, ela gritava: “vamos grita comigo. Grita comigo, por favor. Grita agora.” E não sei como ou por que razão, aquilo foi uma ordem para mim. Gritei, de forma temerária, violenta. E num ímpeto, ela me calou, me dando um beijo fundo e repentino.

Agora escute o silêncio, ela disse. E me indagou com os olhos. Então?

Não estou ouvindo nada.

Nada?, ela disse. Eu estou.

O quê?

O tema de Frank.

Que tema?

O seu tema.

***

Ela não tinha telefone, por isso eu precisava esperar suas ligações. Invariavelmente, elas vinham nos horários mais improváveis e, logo, o imprevisto passou a ser habitual. Eu esperava atender suas ligações no meio da noite, no meio da madrugada, às seis da manhã, quando eu conseguia dormir depois de tentar esquecê-la. Também ao meio-dia quando ela me perguntava onde eu estava e depois de ouvir que eu estava trabalhando, ela respondia com desprezo, ahnnn, é que quero ver você hoje à noite.

E eu aceitava, como aceitei tudo que vinha dela.

Preciso que hoje seja ontem de novo.

Como assim, garota?

Frank, preciso que hoje seja ontem de novo. Preciso disso agora, e preciso disso com você.

Tudo bem, vou pegar minha máquina do tempo.

Ela me apertou com força porque sabia ser violenta, me beijou de seu jeito próprio, quase gritante, e sussurrou:

Preciso que hoje seja ontem e preciso que você remova de mim essa vontade de ir embora daqui.

***

Durante alguns dias foi ontem, como ela queria. Foi um mesmo dia, repetidamente, dia após dia. Mas não consegui enganar o tempo e, assim, foi numa terça-feira de manhã que ela partiu. Na quarta, na quinta, na sexta, no sábado, no domingo, na segunda, na terça, na quarta, na quinta e em todos os dias seguintes fiquei esperando suas improváveis ligações. Dormi pouco, comi pouco, pensei pouco e só quis de volta as suas vontades enlouquecidas de gritar e de que todos os dias fossem um só novamente.

Um dia ouvi seus gritos. Procurei em dezenas de janelas iluminadas dos prédios à minha volta, calculando a direção daquele som. Gritei de volta, querendo que ela me escutasse. Depois, sobreveio o silêncio, sem sua boca violenta me beijando.

Invadindo o silêncio ouvi uma canção que dizia algo como: I promise when the sun comes up. I promise I’ll be true.

Não consegui mais dormir. Nem naquela noite, nem nas seguintes.

Esperando o sol nascer, esperando o dia de ontem de novo. Esperando por ela, que sempre foi o avesso da verdade. O avesso do esquecimento.



Texto: Danielle Costa

5 comentários:

  1. confesso q esta obra conjunta renata+dani me deixou sem saber o q dizer. muitas obras no clp se completam e se encaixam perfeitamente, mas o q afinal essas duas aí querem nos dizer? algo a ver com avesso, mas avesso de q? ambas focam personagens um tanto histéricos. é como se toda encenação, toda performance tivesse sempre algo do histérico q querendo nos dizer uma verdade nos fala apenas seu avesso. avesso q não é uma mentira, talvez uma ficção. difícil distinguir verdade e mentira numa ficção ou numa encenação. mais difícil ainda não é esquecer algo, mas esquecer o esquecimento...

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  2. Olá. Visito menos do que deveria o "C, L & P", mas gosto muita da proposta. Visito pouco também porque tenho o privilégio de ler em primeira mão os contos da Dani, pouco antes deles serem publicados... Me acanho em comentar on-line, porque não faço lobby, e ela já tem muitos leitores que não fazem aconomia quando se trata de elogiar. Mas esse conto ficou incrível. Adorei. (Eu que em geral torço o nariz pra muita introspecção.) Achei que iria destacar o lance do grito, mas fiquei aturdido com o pedido da personagem: para que hoje seja ontem. De repente, em poucas linhas, a Dani registrou um monte de sentimentos e situações em que volta e meia a gente se encontra, muitas vezes sem ter muita consciência... Me comoveu. Por enquanto ela dorme, mas matutarei algo mais articulado para dizer a ela... Ou tentarei. Boa noite.

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  3. Mais um excelente texto da Danielle Costa. Realmente bom do inicio ao fim. Quanto à performance... sei lá. Pode até ter sido uma boa ideia da artista. Mas...A qualidade tecnica do produto é MUITO ruim. Não dá para acreditar que é um post do Caneta, Lente e Pincel. Mas, como escrevi acima, "sei lá"!! Parabéns em dobro para a Danielle por conseguir escrever tão bem apesar de tudo.

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  4. Gostaria de dizer - antes do comentário - que sou a pessoa mais positivista que conheço. Acredito que "gosto" é individual. Isto é: cada um tem o seu! Mas falta de qualidade é imperdoavel quando a proposta é arte e cultura. Sinto pela artista Renata Mafra. Mas creio que na próxima ela vai nos surpreender com o seu trabalho.

    Já a Danielle é de uma sensibilidade impar. Excelente texto. Obrigado por tão "saborosa" leitura!

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