segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

100

Josias era funcionário de uma repartição pública de horários rígidos. Cedo se sentava na cadeira, e dela saía para almoçar e mais tarde para retornar para casa. Todo dia, ao voltar, afrouxava a gravata, sem tirá-la do pescoço até a hora de se deitar. Gostava da sensação de poder respirar mais livremente, mas não conseguia se desvencilhar totalmente da elegância que o desleixo calculado lhe trazia. Sentava-se à frente do computador e abria o processador de texto, cumprindo a promessa de escrever algo ao fim do dia. Mas não conseguia escrever sequer uma frase. Era da época da máquina de escrever, e gostava daquela sensação de que só se podia ver o que já foi escrito. A máquina lhe revelava apenas as idéias já registradas. O computador lhe exibia a página inteira em branco, revelando um futuro tão vazio quanto a linha que tentava ocupar. A pressão do nada à sua frente era muita. Josias ia dormir.

Luciana era dermatologista. Sua vida era dividida entre a clínica, plantões em 3 hospitais e atendimento comunitário nas manhãs de quarta. Levava em sua bolsa uma máquina fotográfica, na busca por registrar tudo que passava tão rapidamente por seus olhos entre uma consulta e outra. Ao chegar em casa, descarregava no computador nunca menos de 50 fotos. Raramente se lembrava o contexto em que tinham sido tiradas, e mais raramente ainda via algum sentido nos objetos que lhe tinham servido de modelo. Fotos e mais fotos de tudo, retratos e mais retratos de nada. Luciana ia dormir.
Um dia, Josias não correu para casa. Afrouxou a gravata e pediu uma cerveja no bar em frente ao seu trabalho. Luciana estava sentada na mesa em frente a sua. Tirava fotos e se apressava em ver o resultado no visor LCD de sua câmera. Josias foi até ela.

- Sabe, há poucos anos atrás, eram raros os momentos que valiam alguns preciosos centímetros de filme.
- E hoje? Há muitos que valham megabytes da minha câmera?

Silêncio.

- Acho que na verdade temos megabytes demais pra registrar coisa de menos.
- Eu tiro foto de tudo. Tudo.
- E reclama do quê?
- As fotos não têm me dito mais nada.
- Eu todo dia tento escrever algo, nem que seja sobre meu dia. E acumulo um arquivo imenso de páginas em branco.
- Li um livro em que uma mulher escrevia sobre sua vida, e tudo o que acumulava eram páginas em branco.
- Esse livro é recente?
- Sim. Bem recente.
- Como é que alguém conseguiu escrevê-lo?

Josias e Luciana trocaram alguns beijos. Dançaram uma ou duas músicas e seguiram para a casa de Luciana. Josias tirou a gravata, e depois toda a roupa. Luciana também.

- Quero te fotografar. Nu. Agora.

E os dois brincaram de se fotografar a noite inteira. No dia seguinte, Josias ficou com as bochechas vermelhas ao receber por e-mail uma foto de Luciana, seguida dos seguintes dizeres:

“Há muito tempo uma foto não me dizia tanto. Já estou com saudade.”

Josias chegou em casa e afrouxou a gravata. Sentou-se à frente do computador e passou uma hora olhando para a foto de Luciana. Queria escrever algo, mas continuava bloqueado. Tirou a gravata e a blusa e o cinto – ah, como o cinto era incômodo – e a calça e as cuecas e as meias. Começou a escrever sobre a foto de Luciana. Apenas palavras explicando o que via. O que não era pouco.

Luciana usava uma camisa velha e tinha o notebook no colo. Mexia nas fotos, aplicava filtros, mexia nas matizes, brincava de laboratório e jurava que estava rodeada por luzes vermelhas e varais cheios de imagens ganhando vida e pingando. Achou velhos tubos de tinta e, na falta de telas virgens, por vezes se levantava e pintava as paredes. Desafogava de si cores que não se lembrava de ter visto. Um pequeno envelope piscou na parte de baixo da tela do computador. Era o texto de Josias, acompanhado da mensagem: “O branco das páginas não me assusta mais. Ao contrário, me inspira a preencher cada vez mais os espaços que cismam em aparecer à frente”.

Josias e Luciana trocam diariamente fotos e textos, pinturas e contos, poesias e vídeos, músicas, tudo. Eles começaram a conhecer a si próprios quando se viram pelos olhos um do outro. E agora há um tudo perante os dois, e toda forma de expressão é pouco para retratá-lo.

(obrigado a todos por serem as lucianas de minha vida. um beijo de quem é 100 vezes mais feliz há 100 posts)



texto: Saulo Aride
imagem, inspirada no texto: Marcelo Damm (clique na imagem para mais detalhes)


6 comentários:

  1. Obrigado pela imagem, Marcelo. Linda! E o processo de construção é a melhor representação tanto do conto quanto do que todos fazemos nesse projeto. Parabéns!

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  2. O Saulo não fez o óbvio de falar sobre o site, mas criou uma história utilizando o conceito do Projeto, mostrando sua força positiva, seja aplicada a que campo for, ao amor ou à arte.

    Damm, nunca acomodado e sempre dando o melhor de si, preocupou-se em criar uma imagem que contempla tanto os artistas plásticos, quanto os fotógrafos e os escritores. Um pouco do trabalho de cada um está nela, digna do Post 100.

    Agradeço aos dois, a todos os que já colaboraram com o site, mesmo que com uma única obra, e aos leitores que são o incentivo para que sigamos. Produzir mensalmente com prazo é, às vezes, um tormento para o artista. Mas o prazer de contribuir para um projeto bacana - prazer garantido por saber que sua obra será incrementada por quem a recebe e que há pessoas aguardando para vê-la - supera esta agradável dor de cabeça.

    "100 vezes mais feliz há 100 posts"

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  3. Estou feliz com a marca de cem posts!
    Parabéns ao Renato Amado e a todos os envolvidos; a cada um que lidou com as delícias e as dores da criação e da exposição.
    O texto do Saulo e o desenho do Damm conseguiram o que considero uma proeza, cada um, com a sua expressão, conjugou corpo com arte numa parceria super interessante.

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  4. o saulo nos brinda com uma semiótica amorosa e faz do encontro entre homem e mulher uma página em branco para imagens e letras afetivas, enquanto o damm corporifica em linhas e cores o desejo de brincar-criar-amar. o clp está de parabéns por ter se encarnado como o espaço de encontro de símbolos e criatividade. nota 100 para todos.

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