segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Contadora de Sonhos

Imagem: Marcelo Damm



Havia se convencido de que sua missão na terra era colocar um pouco de sonho nas mentes que não conseguiam sonhar. Encargo extravagante, considerando as dificuldades de se modificar o que já estava feito por Deus. Diziam na cidade que a falta de sonhos é indício da falta de ligação com o espírito. Ela seria apenas a facilitadora na relação entre alma e carne.

A contadora de sonhos ficava deitada na imensa cama, no meio do antigo campo de futebol da cidade, dormindo e sonhando, porque não era daquelas que só sonhavam acordada. E enquanto dormia e sonhava, ia narrando os sonhos que lhe passavam pela cabeça. Homens que se viam crianças arrancando os dentes dos jacarés do pântano; moças que se beijavam enroladas em laços de fitas coloridas; cobras que eram cortadas ao meio e continuavam a correr atrás das pessoas; filhas que transavam com os pais; gente que voava; netos que matavam as avós; criança que nascia sem cabeça; líquidos cor de sangue e cheiro de mofo que eram bebidos como o melhor dos vinhos e mais um monte de sonhos sobre coisas vãs: nascimentos, casamentos, vitórias de times de futebol e toda sorte de bobagens.

As arquibancadas se enchiam de homens e mulheres de olhares secos e bocas tristes. Ficavam lá sentados nas arquibancadas, sonhando por tabela, os perdidos na vida, os zumbis e dançarinos sem música, aqueles a quem doía imaginar, aqueles a quem a vida encaixotou impedindo movimentos até mesmo interiores. A entrada de crianças era permitida, mas nunca fora registrada a presença de nenhuma delas, por pura desnecessidade.

Conforme os sonhos iam sendo contados, alguns se identificavam e tomavam para si o pertencimento da história narrada. Em muitos – inúmeros – casos, não eram bem histórias que saíam da boca da contadora de sonhos, mas imagens aparentemente desconexas, cores, formas, frases soltas e, nessas ocasiões, chegava a haver briga entre os ouvintes de sonhos que se identificavam mais com aqueles pedaços de imaginação do que com fantasias com começo meio e fim. Talvez fosse uma questão de adequação à fragmentação exercida diariamente pela vida a fora.

A contadora de sonhos estava naquele lugar há bastante tempo, não se sabe ao certo quanto tempo era, pois até mesmo sua história de vida já se confundia com os sonhos que contava. Cumpria sua missão e já fazia parte da paisagem. Tinha as extremidades longas... os cabelos escorriam trançados pela testa, pela nuca, pela cabeceira da cama, tocavam o chão e se espalhavam pela grama, quem sabe em busca de raízes, uma genealogia perdida; as unhas dos pés se erguiam para o céu, tal qual espadas empunhadas pelos cavaleiros medievais metidos em suas armaduras nos campos de batalha, talvez defendendo algum ideal; os dedos das mãos seguiam em frente, iam, iam, talvez pegar algum detalhe do sonho contado que estivesse tentando fugir do enredo.

Era uma figura interessante, sem dúvida. Nas imensas orelhas podiam ser vistos, vez ou outra, alguns desprovidos de ilusão fazendo seus pedidos... sonhe com isso, sonhe com aquilo, o que lhe provocava espasmos e murmúrios roucos uma vez que a natureza da imaginação não combina com direcionamentos prévios nem vontades.

Para ela, a imaginação se encontrava no mesmo campo das necessidades. Este entendimento a conduzia a pensar que os incapazes de sonhar eram, ao mesmo tempo e por causa disso, incapazes de viver. Também imaginava que, talvez, os inabilitados ao sonho seriam uma espécie de gente não concluída, quer dizer, gente que nasceu antes do tempo, antes do sopro da vida, daí a falta da dimensão ilusória. Mas essas teorias não importam muito para quem aguarda o seu sonho ser sonhado. Assim como, também, não importa muito que o sonho se realize.

A contadora de sonhos cumpre a missão que determinou para si. Pela quantidade cada vez maior de pessoas que vêm procurá-la, percebe-se o quanto de imaginação tem sido perdida pela vida. A contadora de sonhos fala de gente que voa, de bicho que fala, de mortos ressuscitados, de gente desconhecida, do fim do mundo e do começo de tudo. Fala daquela parte esquecida. Fala do que transborda. E fala principalmente sobre aquilo que nos falta.

Texto: Maria Emília Algebaile

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Esta imagem foi vencedora do nosso primeiro Encontro Aberto. No Segundo Encontro, além de eleição de nova imagem, foi eleito o texto acima para compor post com a imagem vencedora do primeiro encontro. Fazemos, agora, um breve intervalo de fim de ano e voltamos no dia 04/01/2010. No dia seguinte, 05/01/2010, será realizado nosso terceiro Encontro Aberto, às 20:00 h, no Espaço Multifoco, Av. Mem de Sá, 126.

Desejamos boas entradas e um feliz 2010!

2 comentários:

  1. Uma imagem impressionante e um texto incrível. Obras merecidamente eleitas. Parabéns!

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