quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ano Ruim

Este é o pior da sua vida. Você está numa cidade desconhecida. Já faz quase dois meses, e ainda não existe neste lugar ninguém que lhe importe. Não sobra dinheiro para se entorpecer em qualquer evento impessoal e badalado. Há uma exigência de confraternização, mas você está suspenso num vácuo gelado. Vejo você de pele macilenta vagando nesse frio. Teu hoje não permite convivência. É o pior da sua vida por conta do passado. Você volta e consegue sentir somente o sufoco de terem te traído. Ridiculamente. É ruim a vontade crescente no peito, náusea de querer estraçalhar, esquartejar todos do ontem. Não só o lobo, também os inocente e ternos. Um devir que não te acolhe. É o pior da sua vida, sem a ocorrência de milagres. Só te resta dormir. Arrume lençóis frescos. Aproveite a antiguidade do casario. A cena do abacateiro na janela. Ter camareira para o café, a cama, a arrumação. Nunca se escolhe a infelicidade.


Faz calor. O ônibus chacoalha em seu percurso objetivo pelo Aterro sinuoso. Estremeço pensando no patético. Pagar uma decadente para descortinar o futuro. Para dizer o que está acontecendo agora. A maior danação é deixar de sentir, é pensar para poder saber. A que ponto cheguei. Me estraçalharam. Acabaram com a minha crença. Me traíram enquanto eu venerava. E paguei para que me dissessem que isto é o pior. Estupidez se escolhe. Só o futebol pode acabar com a autopiedade. Sem tresmalhos. Paulo Mendes Campos e Garrincha vão tabelar e derrubar todos os icis icis icis. O gol tem que acontecer. Prefácio. Não é isso de que preciso. Quero saber do futebol! Não quero, neste momento de suor, ônibus e do pior, escutar que nascemos para morrer, mas também pra viver, que o resto é aflição de espírito. Paulo Mendes me apertando a garganta, o cheiro da grama do Aterro recém cortada, e a Guanabara querendo cair dos meus olhos. Parada obrigatória.


Deus. Boquiaerta. Nunca antes tinha deslumbrado a fênix em seu ovo de pedra. Pela primeira vez, mirei e vi. Estou em choque com a grande escultura extraterrena dividindo o cenário com as luzes chinesas natalinas do shopping esticado. Estou num susto de sentir de novo que o primitivo e o plástico podem conviver no mesmo mundo sem morte. Que é possível se sentir feliz na Guanabara mais suja que pau de galinheiro. Que há delicadeza num banho de mendigo, quando o amigo joga, com um baldinho, água na cabeça do outro com tamanha dedicação. Deus. Passei eternidades nas trevas da apatia, quando todo o milagre da minha vida estava explodindo continuamente. Agora, de prontidão na areia, sofri o renascimento: a raridade de que os opostos não existem. Na padaria, o suco, de tão frio, solta fumaça, como se café quisesse ser. Agora sinto, e por isso sei, que não existe nada de quente e gelado. Estão juntos na mesma coisa. E que é imprevisível o que será tido como o pior ou melhor natal da minha vida.



Texto: Anaê Veronezi (convidada - perfil)





Imagem: João Villela (convidado - perfil)

3 comentários:

  1. como que por um pendulo hipnótico fui sentindo a dor e o alívio de ser e não ser o eu lírico do conto da Anaê..que agora não é mais dela...é do mundo....Parabéns. Malinha.

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  2. Boa obra. Senti, não sabia o que, fiquei boquiaberto. Reli para saber e senti novamente. Olhei então... Traços esquartejavam, e um roxo-rosa que somente senti. O mendigo estava lá com seus olhos tortos e nariz redondo, simples como o seu banho.

    Gostei porque senti...
    Obrigado.

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