sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

IMPORTANTE, LEIA COM ATENÇÃO!!

Prezados,

Toda família tem um doidão. Normalmente um tio. Todo mundo tem um tio doidão. Ou quase todo mundo. Bem, eu tenho. É meu tio Paulo. O tempo parou para o tio Paulo. Parou em 1968. Cogumelo, baseado, ópio e trombeta estão no seu cardápio. Tio Paulo mora no mato, onde se ocupa plantando comida e drogas. Vez por outra se agrega a atividades militantes, justificando-as sempre com fundamentos pseudofilosóficos, tais como: ampliação da solidariedade social; expansão da energia amorosa; abertura ao amor universal. Isso quando não usa a palavra “paradigma” e seus derivativos, que ele ama, como: “participo dessa manifestação em busca de uma alteração dos paradigmas estabelecidos”; ou “o governo tem que estar atento à alteração paradigmática dos valores éticos a que nos submeteu o novo milênio com a aproximação da Era de Aquários.” E assim vai. Jamais fundamentos socioeconômicos.

Tio Paulo nos conta muitas histórias. Histórias loucas, de gnomos, pinheiros respirando com bronquite, saci pererê... Mas quando é perguntado se havia consumido alguma substância entorpecente, a resposta é sempre a mesma: sim. E as histórias não se sustentam, bastando indagar um pouco sobre os detalhes que se nota tratar-se de viagem de drogado.

Entretanto, recentemente tio Paulo vem narrando-nos uma história nova. Ele garante que não estava sob efeito de tóxicos e nos conta com impressionante riqueza de detalhes. Eu tenho ficado cada vez mais assustado. Como sou jornalista resolvi entrevistar meu tio. Eis a degravação do seu depoimento:


“Bicho, eu tava plantando cebola e ouvi um barulho estranho. Um som que era uma mistura de místico com tecnológico, assim como é a pós-modernidade, saca? Ele pairava no ar, tomava o ambiente com sua freqüência elevada que fazia com que desse pra ouvir muito bem, embora fosse baixo. Olhei em volta e vi uma nave espacial parada quase em cima da minha cabeça. Me assustei, larguei a enxada e saí correndo, mas de repente se materializou um E.T. na minha frente. Parei e comecei a tremer que nem vara verde. Ele era da forma clássica: verdinho, humanóide, com olhão. Ele pegou um instrumento, colocou na frente da boca e falou: “bom dia, terráqueo”. Concluí que aquele negócio era um tradutor. Continuei tremendo, a boca aberta, em pânico. Cara, o pânico era tanto que... pô... enfim... acabei molhando a calça. Fiquei calado. O verdinho repetiu num tom vigoroso: “bom dia, terráqueo!”. A voz soava eletrônica, porque vinha do aparelho que ele segurava em frente à boca. Respondi: “bom dia, senhor E.T.”, com a voz trêmula, é claro. Aí ele começou o discurso.

- Terráqueo, gostaria que você informasse aos outros de sua espécie que em breve seu planeta será ocupado pelo Movimento dos Sem Planeta, o MSP, haja vista que não está sendo cumprida a função social da Terra.

Fiquei calado dois segundos. É... meio... meio chocado com aquilo tudo, com o que eu tava ouvindo. Vamos e venhamos, já é uma situação surreal ser interceptado por um alienígena. Ouvir aquilo que ele acabava de dizer, então! Bicho, que viagem! MSP, nunca ia imaginar, nem na mais profunda viagem de trombeta. Mas passados os dois segundos fui tomado por uma certa revolta pelo que ele falou, então avoquei a qualidade de representante da humanidade, tomei as dores de todos os terráqueos injustiçados e passei a lançar argumentos.

- Mas isso é uma injustiça! Veja o meu caso, por exemplo. Você escolheu um péssimo espécime pra fazer esse seu discursinho! Aproveito o planeta. Uso meu pedaço de terra, cultivando e consumindo tudo que nesse chão dá. Viajo, aproveito as cachoeiras, o mar. Entro até em contato com os entes de outras dimensões. Como eu, conheço muitos. Aproveitamos esse pedaço de rocha solta no espaço sideral, utilizamos ele, até demais. Já existe gente em excesso, mais espaço ocupado do que o ideal, produção em massa, sobreutilização dos recursos naturais...

- Terráqueo – o E.T. me cortou -, sua visão de cumprimento da função social é limitada. Você acha que cumprir a função social é utilizar, aproveitar. Não é apenas isso, mas usar com sabedoria. Vocês estão destruindo o planeta. A Terra está se aquecendo demais, os pólos estão derretendo, os desastres naturais se ampliam, o buraco na camada de ozônio não mostra sinais de redução. Vocês estão tornando inabitável o planeta mais privilegiado pra se morar na Via Láctea depois do fora de concurso e inacreditavelmente perfeito - peraí, deixa eu olhar o nome do planeta num papel, que eu anotei... ai, cadê isso... ah, tá aqui... é... bom vamos lá, ele continuou, é... -Opoledidigogobalatixxxxxxxxcaipamdongtápalpapumdoin, que é realmente inigualável. Você tem que ver os brotos que são as fêmeas das duas principais espécies desse planeta. No dia em que você vir isso jamais achará a Gisele Bündchen gostosa. No máximo pegável, mas jamais gostosa.

Respondi ao alien que a gente tava realmente fazendo muito mal ao planeta, mas que aos poucos estávamos nos conscientizando, com ações como o Protocolo de Kyoto. Mas aí ele sumiu. Porra, que susto! Não é só porque o bicho tinha se materializado na minha frente minutos antes que eu já havia me acostumado com aquilo de um ser alienígena aparecer e desaparecer. Tomei, segundos depois, outro susto, quando ele reapareceu com um enorme papel enrolado. O verdinho desenrolou o tal papel no chão, se ajoelhou junto dele, pediu pra que eu me aproximasse e começou a me mostrar um enorme estudo, com inúmeras incógnitas e gráficos. Cara, foram horas de explicações. Fórmulas matemáticas complexíssimas, doidas, que nunca vi e que provavelmente nenhum ser humano já viu, um treco de outro mundo. Os gráficos, então! Puta que pariu! Quinze mil planos. O fato é que o alienígena me provou, matematicamente e de forma irrefutável, que se a Terra continuar controlada pelos seres humanos, em 427 anos terrenos se tornará inabitável. Bicho, não tive nem como contestar. Fiquei parado sem argumentos. Perguntei, então, o que eles pretendem fazer com os terráqueos quando ocuparem o planeta. Ele falou. Bicho, ele falou que a gente vai ter que ir embora da Terra. Pra onde? Pra onde bem entendermos. É isso aí, tchau e bênção. Caso alguém se recuse a sair, ele me garantiu que vai ser ejetado no espaço sideral com um traje espacial que eles vão dar pra compensar a falta de pressão, mais oxigênio e soro na veia suficientes pra duas semanas. Duas semanas terrenas, ele esclareceu. Mas eles não se responsabilizam pelo destino das pessoas lançadas no vazio. Porra. Vai jogar a gente no espaço, bicho! Tem noção disso!?! Imagina o que é você ficar solto flutuando no espaço! Aliás, não só você, mas sete bilhões de pessoas! Porra, que viagem! Perguntei, então, se aquilo era mesmo uma ocupação ou uma desapropriação. Pô, sei lá, associo ocupação mais com um lance de desobediência civil, não com uma violência dessa, de mandar o cara pro espaço. Ele me falou que era mesmo uma ocupação realizada pelo MSP, pra pressionar o governo da galáxia a desapropriar a Terra, um dos planetas ocupados por seres que não lhe dão sua função social. Por isso eles vão lançar os seres humanos em trajes espaciais, pois se, por acaso, a ocupação for considerada ilegal, então eles terão que desocupar o planeta e naves do governo vão levar os humanos vagando pelo espaço de volta pra Terra, ainda com vida, pois o Judiciário galáctico não é tão lento quanto o brasileiro e duas semanas é tempo mais do que suficiente pra, ao menos, analisarem e darem cumprimento a uma liminar. Cara, nosso destino vai ficar nas mãos de juízes e desembargadores aliens! Porra, imagine um alien de terno, gravata e toga decidindo se a gente vive ou morre solto no espaço! Que merda!

Fiquei assustadíssimo com a história e perguntei pra quando eles planejavam a invasão e ele disse que já pra dali a dois dias de Adrotemo, o planeta de origem daquele humanóide, do qual ele foi desalojado por conta da concentração de terras, tornando-se um sem planeta. Perguntei a quantos dias da Terra aquilo equivalia, mas ele falou que havia esquecido seu calendário comprado no banheiro da loja de conveniência do posto espacial no qual ele parou durante a viagem pra cá, onde havia comprado uma barra de cereal andrômedo que, garantiu ele, não é tão eficaz pra regularização da flora intestinal quanto o cereal terreno.

Depois ele pediu pra eu divulgar a ocupação. Pensei, nessa hora: “ah, a gente tem que adiantar o nosso lado, né?”. Pô... pois é... tive que correr atrás do prejuízo. Aí eu perguntei se ele poderia me levar, quando invadissem a Terra, pro planeta... aquele lá do nome grande, que é cheio de fêmeas gostosas. Ele me falou que aquele planeta já tá lotado, pois muita gente imigrou pra lá, então eles não tão aceitando mais ninguém, até pra manter a qualidade de vida. Usam a Terra como exemplo. Dizem que não querem deixar que aconteça o mesmo que aqui e por isso não topam que mais ninguém vá pra lá. Até visto de turista pra esse lugar é difícil de conseguir. Visto, veja só, precisa de visto pra ir pra outro planeta! Bom, depois eu questionei por que eu a receber e ficar responsável por divulgar a ´boa nova` e por que ela tinha que ser dada, uma vez que a ocupação já tava decidida. Ele me falou que era pra dar tempo pros humanos se organizarem e que tinha sido eu o escolhido porque ele tinha ido com a minha cara, tanto que me ofereceu uma cerveja plutônica, que ele tava carregando numa cantoneira invisível. Não gostei. Muito forte e amarga. Mas deu um barato com uma tulipa só. A propósito, a tulipa deles é totalmente diferente. Parece um negócio meio cubista, lembra um pouco Kripton, é muito doido. Fiquei tonto com a bebida e o extraterrestre também. Aí ficamos conversando amenidades. O nome dele é João. Descobri que eles captam ondas da nossa televisão e que Terra Nostra foi um grande sucesso em alguns planetas. As televisões possuem aparelhos tradutores que permitem eles entenderem qualquer língua da Terra. Inclusive, novamente ele sumiu – porra, outro susto - e voltou - caralho, mais um susto - com um grande papel cheio de fórmulas e gráficos, que provava, ainda no início do Brasileirão de 2008, que o Vasco seria rebaixado. Provou, também, através de fórmulas que desconheço, que o Flamengo será campeão brasileiro em 2009. Perguntei, então, por que eles acompanham o nosso futebol, pois qual seria a graça de acompanhar um esporte no qual já se sabe, de antemão, o que vai ocorrer? Ele me falou que é uma das únicas hipóteses em que, por vezes, raras vezes, os cálculos falham, e que isso é objeto de estudo. Mas... questionado sobre mala branca, ele disse que jamais tinha ouvido falar no assunto. Estavam explicados os erros...

Bem, João acabou passando a noite no meu sofá porque ele havia bebido e tinha medo de pegar uma blitz no caminho de volta pra lua que ele habita desde quando foi praticamente expulso do seu planeta natal. No dia seguinte pela manhã ofereci iogurte de leite de cabra e geléia de pêra. Ele ficou extasiado com o sabor dos quitutes e disse que não via a hora de vir colonizar a Terra, planeta de sabores esplendorosos, e que tinha gostado tanto de minha casa que era lá mesmo que ele moraria, o que, segundo ele, me deixava em vantagem, pois eu já conhecia o ser que me expulsaria do meu lar. Bem, fiquei na dúvida se isso era realmente algo a ser comemorado, mas acabei ficando na minha. Depois disso a gente se despediu plantando bananeira – ele planta bananeira com uma facilidade fora do comum – e dando três chutinhos com as pernas pra cima, que é a forma de despedida amistosa no planeta de origem do meu singular visitante. Em resumo, foi isso”.


Repare, nessa história, que meu tio só fica alterado após a cerveja plutônica, estando em perfeito juízo até então. Por essa razão parece-me bastante assustadora. Envio, portanto, esta carta, com a íntegra da gravação da entrevista em anexo, para que o Ministério da Defesa e a Associação Brasileira de Ufologia avaliem e tomem as medidas que julgarem adequadas.


Att.,

Apparício da Silva Torrely.


Texto por: Renato Amado

Imagem: Maria Matina, inspirada no texto.


4 comentários:

  1. Espetacular desenho, Matina. Obrigado por isso. Agora é torcer (MUITO) para a previsão futebolística do extraterrestre estar correta ;)

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  2. para um conto tão louco como o tio viajante ufófilo maria matina fez uma daqueles desenhos q guardam o frescor das nossas maluquices de infância, onde escorre uma nascente (de) poesia. renato continua seguro na sua linha narrativa, desenvolvendo um estilo "absurdete", fantástico, muito inventivo e sempre muito irônico. parabéns!

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  3. Eu fico imaginando o autor deste texto criando o nome do planeta perfeito... Muito bom, tanto o texto quanto a imagem. Parabéns!

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