sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Mais Tarde

Enquanto Amanda dormia no sofá desenhado com retalhos vermelhos, suas mãos agarravam uma pequena almofada com um enorme gato branco bordado e eu tocava uma música inacabada ao piano.

Enquanto Amanda, ainda adormecida no sofá vermelho que foi de sua avó, descansava suas tristezas em algum lugar inalcançável, eu tentava encontrar em seu rosto os traços que ela poderia ter herdado de mim. Seus pés escorregavam sobre o encosto, milimetricamente, à medida que seus músculos relaxavam. Os olhos caídos, tristonhos, eram os olhos de Érica. Assim como a boca fina, desconfiada e a forma como mordiscava os lábios enquanto pensava, comprimindo a testa. Eu via, em Amanda, a Érica de dezessete anos atrás, quando a deixei junto com todas as nossas inocências juvenis. O nariz de Amanda. Sim, o nariz talvez, ela tivesse herdado de mim. Sobressaía de seu pequeno rosto oval. Estragava alguma tranqüilidade ali existente, parecia errado, mal colocado, irregular, talvez como eu, seu próprio pai, chegando só agora em sua vida.

Enquanto Amanda dormia, eu lembrava das coisas daquela pequena cidade que abandonei, há dezessete anos, quando minha filha adormecida ainda sonhava coisas desconhecidas, quando ela ainda nem tinha nome, enquanto era gerada lentamente na barriga de Érica. Seu José ainda tem uma banca de jornal na mesma esquina erma e solitária, mas hoje, tem também uma geladeira para vender H2O e Gatorate. Dona Carla ainda tem um carrinho de cachorro-quente e de pipoca na porta da escola. A vizinha ainda varre o quintal três vezes por dia, todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados. Mas agora há também mais bares na cidade e os bares estão mais cheios, têm televisões de LCD ligadas todo o tempo e tecladistas tocando músicas de Elton John e James Taylor.

Enquanto Amanda dormia, sonhando com algum instante imaturo como ela própria, eu refazia mentalmente a vida de sua mãe, desde o dia em que a deixei, quando tínhamos apenas dezoito anos, e fui embora dessa pequena cidade provinciana e careta, meio anos 80, meio comédia adolescente, meio filme B americano, prometendo que voltaria e a levaria para o Rio de Janeiro comigo. Tentei refazer sua vida, olhando para Amanda adormecida, até o dia em que Érica se matou, me trazendo irremediavelmente de volta para casa. Para sua casa. Para a casa de Amanda. E era como se todos os caminhos que percorri me levassem para aquele instante, em que Amanda dormia no sofá de retalhos cor de sangue, e enquanto eu criava uma melodia imaginária para uma filha real e abandonada.

Enquanto Amanda dormia, eu achei que havia visto uma lágrima caindo de seus olhos no sofá carmim. Mas era eu que secava meu rosto e pegava um copo de conhaque. E nesse momento quase pude ver Érica na minha frente. Quase pude ver Érica e nosso primeiro porre de vodca e tequila. Quase pude ver Érica e nosso primeiro sonho. Quase vi Érica e nosso primeiro beijo. Mas tudo o que eu realmente via era Amanda, nossa única filha.

Enquanto Amanda, alheia a todos esses meus pensamentos, adormecia no sofá, eu tive medo. Tive medo do que Érica teria me dito antes de se matar. Tive medo do que Amanda me dirá daqui a alguns anos, quando for adulta, por causa da raiva. Tive medo das coisas que ela nunca me dirá, por causa da decepção.

Tive medo, enfim, daquele ser adormecido num sofá velho, as mãos agarradas a uma almofada azul com um enorme gato branco bordado nela.


Texto: Danielle Costa



Vídeo: Júlio Rodrigues

6 comentários:

  1. Nossa, flagrei-me aplaudindo sozinho em casa ao terminar de ver esse vídeo. Deu uma grande carga poética ao texto. Muito, muito bom.

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  2. os olhos do narrador no conto da danielle veem a imagem pacífica de uma menina dormindo no sofá. mas não veem só isso. Os olhos enxergam mais do q o visível. eles veem passado e futuro, eles veem a culpa e a esperança, eles veem o medo. já disseram q o olhar é a janela da alma. no vídeo do julio é por esta janela q se pretende entrar. para atingir a alma, o invisível do invisível do visível. um belo e doloroso vídeo para um doloroso e belo texto.

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  3. Sou fã número um dos trabalhos do Julio Rodrigues. Amo a forma como a Daniele escreve. Juntar os dois só pode ser absoluto sucesso. Parabéns!!!

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  4. Que bonito Julio. Voce conseguiu colocar a quantidade exata de emoção. beijo

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