segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Tempat Bagi Orang Yg Terlantar

Leonardo Azevedo passou a vida procurando edições raras de livros. Entre suas preciosidades, estão publicações banidas do cânone bíblico como, por exemplo, o Livro de Enoch e O Apocalipse de Tiago.

Professor letrado, Leonardo reluta a se adaptar à era dos downloads e obras em pdf. Odeia ler livro na tela do computador. Não há mais espaço na sua casa para guardar livros, eles se amontoam em pilhas pela sala e já chegaram até a cozinha. Mesmo assim, continua viajando por cidadezinhas e vilarejos buscando publicações.

Sua atual obsessão é um livro negro de pronúncia complicada, Tempat Bagi Orang Yg Terlantar, considerado, como muitos outros, apócrifo. Dizem que contém profecias e revelações perturbadoras sobre a criação deste mundo, e é composto apenas por imagens. As ilustrações surgem aleatoriamente para cada leitor que ousa a se aventurar pelas suas páginas malditas.

Leonardo sabe que não deveria procurá-lo. Se foi exonerado, é para que continue na escuridão do desconhecimento. Mas a vontade de folheá-lo é muito maior.

Anos de e-mails e telefonemas levaram-no a um endereço em Pinhais, a 20 quilômetros de Curitiba, onde reside o Sr. Adelar Assumpção. Ele cuida de uma biblioteca de bairro, que muitas crianças costumavam frequentar diariamente.

Já é noite quando Leonardo bate as palmas no portão, chamando por Adelar. Uma coruja observa tudo, lá de cima, no conforto de um galho de pinheiro. Alguns minutos depois, aparece alguém, protegendo-se do frio com cachecol, sobretudo e um gorro do Charlotte Hornets:

– Pois não?

– Sr. Adelar Assumção?

– Eu mesmo!

– Sou Leonardo Azevedo, liguei para o senhor hoje cedo.

– Ah, sim, pode entrar, professor! O portão está aberto.

Leonardo caminha com Adelar até a cozinha, enquanto conversam sobre os livros. Uma chaleira ferve no fogão antigo e esfalfado.

– Toma café, professor?

– Opa! Muito bom!

– Esquenta o coração. Mas me diga, quer dizer que possui uma versão do Livro de Enoch na sua biblioteca?

– Isso mesmo. Fabuloso! Encontrei-o num sebo obscuro em Maringá. Acho que foi em 89. Algo assim. Estava conservado até. Uma sorte!

– E é verdade que Enoch relata um encontro com seres extraterrestres nesse livro?

– Ele não escreve exatamente extraterrestre. Relata: "...recebi a visita de dois homens de grande cultura, como jamais havia visto. Seus rostos brilhavam como o Sol, seus olhos pareciam lâmpadas ardentes. O fogo era expelido por seus lábios. Suas roupas pareciam plumas. Seus pés eram purpúreos, seus olhos brilhavam mais que a neve. Chamaram-me por meu nome..."

Olhos brilhantes e fogo da boca? Isso até parece descrição do saci!

– O saci? Desconhecia essa descrição. Só conhecia a clássica versão perneta com gorro vermelho.

– Tenho uma edição de Monteiro Lobato intitulada O Saci-Pererê: resultado de um inquérito. Uma coletânea de relatos de pessoas do Brasil todo. Enviaram cartas ao jornal O Estado de S. Paulo com seus contos e histórias relacionadas ao saci. Alguns casos verídicos! Depois pego para o senhor ver. Nesse livro, há definições impressionantes, e entre elas muitos comentam sobre olhos brilhantes e labaredas nos lábios.

Adelar despeja a água fervendo sobre o café no coador. O perfume se alastra pela casa. A fumaça vaga entre as prateleiras e pilhas de livros sobre os armários, sumindo na escuridão de um quarto escuro. Lá fora, o vento uiva ameaçadoramente.

– Enoch descreve nesse livro sete mundos diferentes do nosso. Viu neles criaturas aladas com cabeças de crocodilo e pés e caudas de leão. Enoch afirma que, para ele, a viagem durou poucos dias, mas, quando voltou para a Terra, séculos haviam passado. É o que a relatividade anuncia para uma viagem feita à velocidade da luz. E o Livro de Enoch, mesmo que não date do século X, mesmo que não seja contemporâneo da Bíblia, foi publicado bem antes da descoberta da relatividade – conta o professor, enquanto Adelar termina de despejar a água e fecha a térmica.

– Muito interessante! Caneca?

– Pode ser.

Adelar serve o café em duas canecas brancas.

– Humm, delícia. Nem forte, nem fraco. No ponto.

– Vamos até a sala, quero te mostrar algumas raridades.

O professor Leonardo senta-se à grande mesa de madeira, encostada na janela. Sorve lentamente o café, tomando cuidado para não queimar a língua. Adelar traz uma caixinha de madeira à mesa, com suprimentos de fumo para cachimbo.

– O senhor fuma?

– Não, obrigado. Manda brasa!

Adelar então começa a preparar o calango, socando o fumo com as mãos protegidas do frio por uma luva sem dedos.

– Mas o senhor sabe o motivo que me trouxe até aqui – relembra o professor.

– Tem certeza que deseja aquele livro sinistro?

– Há anos espero por isso, Adelar!

O taciturno não responde. Concentra-se em acender a brasa de seu longo cachimbo, exalando numa primeira baforada a fragrância forte de baunilha. A fumaça mistura-se às das canecas de café, tomando conta do espaço.

Só então Adelar responde:

– Existem livros que deveriam ficar na escuridão e de lá nunca sair.

Leonardo olha em direção ao setor escuro da casa, um corredor que provavelmente leva aos quartos.

– Vou lá pegá-lo. Aguarde aqui, por favor.

Adelar volta-se à escuridão. A fumaça do cachimbo desaparece lentamente durante seu caminhar até o quarto. Adelar volta, depois de meia hora, com o livro em mãos. Descansa-o suavemente sobre a mesa. Na capa, o título Tempat Bagi Orang Yg Terlantar gravado em relevo. Leonardo folheia-o cuidadosamente, pulando algumas páginas. Volta, analisa a brochura, cheira. Está claramente deslumbrado. Tanto que não percebe a arma que Adelar tira de dentro do casaco escuro.

– Você sabe que não poderá viver depois disso, não é? – pergunta apontando-lhe a pistola prateada.

– Sim, eu conheço o mito. Por isso não vim sozinho.

Adelar olha em volta, apontando a arma para outras direções da casa. Quando então percebe na luz vermelha que marca seu peito. Leonardo revela:

– Meu companheiro está com você na mira desde que entrei. Ele arrebenta seus miolos antes que você pense em apertar o gatilho. Agora me faça o favor de trazer o livro correto. Não me interessa esta cópia banal!

Leonardo saca uma pistola também e manda Adelar depositar a sua arma sobre a mesa antes de irem até o quarto pegar o livro certo.

Lentamente caminham em direção à escuridão. O livreiro sente o cano da pistola em sua nuca enquanto anda.

A luz vermelha acompanha-os até sumirem. Do lado de fora, o atirador camuflado, Rodrigo Franco, mantém a posição, mirando a sala de Adelar no visor da espingarda.

Está muito frio, mas o rapaz agüenta firme na espreita. Nem a fome o abate, pois sabe o valor da missão à qual foi designado.

Horas se passam e os dois não voltam do setor escuro da casa. Rodrigo tenta iluminar algo com a luz vermelha da mira, mas não funciona. Conjectura a possibilidade de ter acontecido algo de ruim. E para piorar, começa a ouvir sons sinistros vindos da floresta. Alguma criatura parece rondar a casa. Talvez seja imaginação, mas Rodrigo não espera para comprovar. Corre em direção à casa chamando por Leonardo. Ninguém responde. Nenhum som. Nada.

– Leonardo! Está bem? Leonardooo!

Não acredita que algo pode ter acontecido, afinal não ouvira som algum. Nem barulho de tiro nem batida estanque. Nada. O silêncio imperou desde que Leonardo entrou.

Assim que Rodrigo adentra a casa, encosta sua espingarda e troca-a pela pistola de Adelar, que estava sobre a mesa. Embrenha-se então à parte escura. Tateia as paredes à procura de um interruptor, mas não encontra. Seus pés vão vasculhando objetos e possíveis corpos. Mas não há nada. Dentro do quarto, consegue descobrir uma janela fechada. Abre o trinco, permitindo que a luz da lua ilumine um pouco. Não há corpos, nem sangue. Nenhum sinal de Adelar ou Leonardo. Apenas um livro velho sobre o piso de madeira carcomido. Na capa, Rodrigo Tempat Bagi Orang Yg Terlantar. Com o livro em mãos, vai embora assustado.

Ainda dá uma volta lá fora chamando pelo amigo, mas ninguém responde. Intrigado, corre até o carro. Joga as armas no banco de trás e o livro na frente. Para matar a curiosidade, antes de ligar o carro, dá uma folheada no volume. A imagem que lhe aparece é semelhante ao Yamantaka, criatura citada no Bardo Thodol, livro dos mortos dos tibetanos. Rodrigo se assusta e fecha logo, desistindo de explorá-lo.

Dirige o carro em direção à cidade. Batimentos acelerados. Teoriza na mente o que teria acontecido àqueles dois. Estrada vazia. Uma escuridão apocalíptica se alastra por tudo, consumindo todos os lugares por onde o carro passa, até engolir por completo o carro de Rodrigo.

Muitas horas depois, o carro é encontrado abandonado em um acostamento por policiais. Não há vestígios de sangue nem luta. Sobre o banco da frente, o velho livro.



Texto: Fabiano Vianna




vídeocolagem+songs: D K L



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