sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Artista



Eu adoro pintura. Não terminei a Belas Artes, mas sempre colecionei livros de artistas.Tranquei a faculdade porque os professores não entendiam o conceito de minha obra. Meu lance são instalações com corpos humanos. Também uso sangue. Para pintar, sabe? Marquês de Sade já fez isso. Odeio sangue, apesar de vê-lo todos os dias. Os borrifos criam abstratas composições pelas paredes. Sou praticamente um Jackson Pollock do sangue. Às vezes escrevo algumas coisas também, como o Basquiat. Mas agora estou no meio de uma crise criativa. Tudo isso por causa de uma vadia chamada Júlia. Se me tornei um monstro, foi por causa dela. Essazinha acabou comigo. Sugou todas minhas forças e agora não consigo mais criar. Nem um rabisco. Só borrões. O nosso namoro era tão perfeito, e agora ela vive com aquele idiota. Matarei os dois. Cobrirei a casa inteira de plástico, se precisar. Até mesmo os lambrequins. Ela deve morar em uma casa com lambrequins. Como todos os outros. Talvez o marido dela não seja mais tão gordo ou eu não o reconheça mais. Mas os olhos azuis eu não esqueço. Morenas são todas vagabundas. Os jornais anunciam coisas equivocadas. Não matei aquela gente toda. Não conheço ninguém naquelas fotos. Eles acham que sou uma espécie de aberração, não sei. É só ela que quero. Júlia! Como poderei ser feliz sem matá-la? Ela não merece viver. Vou mandar um recado para os policiais. Na última vez que falei ao telefone com o detetive, ele me disse que Júlia já estava morta. Querem me fazer de trouxa, esses vermes. Dizem também que não tenho sentimentos, que sou psicopata. Oras, e psicopata assiste desenho animado? Adoro o pica-pau. Rio muito. Outra, amo a Júlia. Duvido que um “serial-killer” sinta isso. É como me chamam. “Serial-killer”. Babacas! Não sabem o que passei. A fome atordoa. Sabe o que é viver num buraco imundo e não ter grana nem para um pastel? Um dia eles entenderão. Minha grande obra vai estar completa quando eu matar a Júlia. Comparam-me a Charles Manson e Buddy não-sei-quem. Não conheço nenhum destes caras. Meu ídolo mesmo é o Basquiat.

Texto por Fabiano Vianna
Ilustração: Fabiano Gummo

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