quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Blumenstrasse

Imagem: Pilar Domingo


München, 28 de setembro de 1974.


Sim, J., eu já cheguei. Você acredita que nem suei muito as mãos, no caminho até aqui? Foi sorte. Sentou uma mulher enorme do meu lado e eu achei por bem colocar o medo pra dormir ainda no Brasil, se eu tivesse que dizer, diria que foi na altura de Salvador, mais ou menos.


Aqui, acontece uma coisa que é assim: a saudade. E no corpo eu sei bem onde ela fica. É na parte de trás da cabeça, onde teve mais carinho, um dia. A minha está morando ali agora. Não prendo nem os cabelos que é pra não deixá-la exposta. A saudade na Europa dói mais, eu acho. Mas estou bem.


A cidade é tão bonita que eu queria que você visse. Dizem que na Primavera é mais, agora ainda é Outono. Queria mandar um retrato daqui, mas não consigo. Vamos tentar uma coisa? Você lê a carta e depois fecha os olhos pra imaginar o que eu disse, está bem? Tem umas árvores secas e uns jardins molhados, de gelo. Tem umas casinhas de pedra (iguais às do filme do Bergman), que lembram até aquelas de Itaipava. São dias muito bonitos de céu, mas com temperaturas que sorriem pouco. Estou até mais invernal aqui. Logo eu.


Enquanto as aulas não começam, estou me ocupando com coisas como arrumar a casa. Se não fosse tão tarde aqui e eu não estivesse cansada, recomeçaria esta carta dizendo “tenho uma varanda”. Uma casa com varanda é como uma mulher grávida, é só um pedacinho a mais, mas já muda a vida inteira.


Chegando aqui, inventei muitas teorias, quer ouvir algumas? A primeira diz que o tempo passa mais rápido no hemisfério norte do que no sul, por causa das correntes de vento do Pacífico, isso significa que qualquer dia desses, eu já vou estar voltando. Não é bom? A outra teoria (essa eu fiz na fila da Apotheke, a farmácia, enquanto tentava imaginar como se diz comprimido em alemão) diz que a capacidade de resignação de uma pessoa poderia ser inversamente proporcional ao tamanho dos seus pés, o que seria bom pra mim, uma mulher que quase não acha sapatos do seu numero. 34 é raro, principalmente, na Europa.  E teve mais uma que eu esqueci. Acho que era ainda mais boba.



 

Queria te contar da praça que tem na rua de trás: a Ana Platz. Pensei que o nome tivesse sido dado em homenagem a alguma mulher importante, uma duquesa de longos vestidos bordados, mas um senhor me disse que Ana era o nome da tartaruga de um dos reis do século XIX. Deve ser por isso que a praça é tão lenta. Quase não tem crianças. Não daria para brincar vestindo uma blusa e dois casacos, é muito desconfortável.



Você acha que estou longe? Não estou. E agora, J., preste bem atenção. Quando der, escreva. Quando não der mais, venha. Mas venha antes da saudade crescer, crescer, crescer e eu não poder mais abotoar os casacos.

 



Um beijo ou dois (ou até três),


M.


Texto: Ilana Reznik




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