sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ciclo da Vida



Video por Renata Mafra


Quando abri os olhos, um sonolento médico, sentado ao meu lado, se sacudiu na cadeira, colocou os óculos e perguntou se eu sabia onde estava. Óbvio que não. Ele me disse que passei alguns dias desacordado e que era possível que tivesse perdido parte da memória. Disse ainda que, pela marca no lado esquerdo da testa, perto de onde começa o cabelo, provavelmente fora alvo de uma pancada que me desmaiou. Ele me perguntou se sabia onde era minha casa. Óbvio que não. Ao que respondeu que isso era um problema, pois ninguém tinha aparecido para me buscar. Pediu licença e saiu do quarto. Minutos depois eu saí.

Ao sair do hospital, forcei a memória para ver se conseguia lembrar do mínimo que fosse. Lembro que estava num hospital, lembro o que é um hospital, o que é um médico, o que é uma cidade, como funciona o trânsito e seus sinais, mas não a hora em que os atravessava. Lembro-me de prédios, elevadores, táxis, ônibus, mas não das linhas que deveria pegar. Lembro-me de rádio, televisão, cinema, mas não dos filmes a que assisti. Mantive a memória do mundo, mas perdi a memória de mim.

A única coisa que me volta à mente são imagens estranhas de uma praia. A textura das imagens é diferente das que vejo com meus olhos. Nas minhas lembranças vejo uma praia borrada, como se tivesse sido filmada em uma Super 8. Eu me lembro do que é uma Super 8. Várias imagens da praia, mas eu não estou nelas.

Mas a cidade em que caminho não parece ter praias, ao menos não numa primeira impressão. Também não há marquises na cidade onde eu caminho. Todo prédio é delimitado por grades imensas com interfones de apenas um botão, de modo que, quando chove, não há onde se abrigar. Não me vejo nas chuvas desta cidade.

Vejo mães caminhando com suas crianças, casais de mãos dadas caminhando e olhando para a frente, babás vestidas de roupas brancas empurrando carrinhos em movimentos repetidos. Vejo pessoas que se gostam, que se apegam, que necessitam umas das outras, que se juntam. Eu me lembro do que são famílias, mas não me vejo nelas.

Pego um ônibus e explico minha situação. O trocador me pergunta se tenho algum dinheiro. Óbvio que não. Ele me manda descer do ônibus. Eu me lembro do que é dinheiro, mas não me lembro de como o conseguia. Não me vejo indo ao escritório, cumprindo horários e recebendo dinheiro ao fim do mês. Eu me lembro do que é trabalho, mas não me vejo nele.

Ao cair da tarde, após já ter caminhado por todo o dia sem me enxergar em nada ou ninguém, encontro uma curva que me apresenta à praia que aparece em minhas únicas lembranças. Os mesmos coqueiros, a mesma água, a mesma luz. As mesmas imagens, e eu continuo fora delas. A marca no lado esquerdo de minha testa dói um pouco.

Um homem filma a praia com uma Super 8. Ele me pergunta se já conhecia aquela praia. Óbvio que não. Pergunto por que ele faz aquelas imagens.

“Pra que você se lembre delas depois”.

Depois do quê, pergunto. E ele me acerta a cabeça com uma barra de ferro, atingindo o lado esquerdo da minha testa, perto de onde começa o cabelo.


Texto por Saulo Aride.

3 comentários:

  1. Sensacional, Saulo... Amei o "Mantive a memória do mundo, mas perdi a memória de mim." Não pude deixar de fazer uma relação com o meu texto de ontem... Adoraria se lesse: Asfalto derrete na Presidente Vargas. http://cadernoderascunho.shutterfly.com/

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