segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Maria Derretida


Imagem por Marcelo Damm

Seu nome era Maria Derretida. Correção: ela se chamava Maria Derretida. Desculpe. Ela será Maria Derretida. Mas não porque quis. Foi pela vontade de outra pessoa. Alguém, que foi, é ou pode vir a ser de carne e osso, porém, no momento, é onipresente e tátil como o ar. Ele talvez estivesse com ela agora. O que Maria (por que Derretida?) sabia é que eles estavam juntos há tempos. Quanto?, ninguém disse, sequer ele. Ele? Ou ele? Seu pequeno criador a batizou e a deixou sem nada em seguida. O criador não sabia o que fazer. Apenas mentalizou sua tristeza, sua figura agoniada, como a vítima de um crime passional ou um anjo com a face marcada por espirros de ácido. Ela era Maria e Derretida era sua condição. Ela: figura emocionalmente fragilizada, assombrada por fantasmas congelados, formatada em traços imperfeitos de um oceano que abriga todas as cores por trás de uma cortina cinza. A palheta obscura era tão imensa que não sabia o que pensar. Lamentava não poder se libertar de uma existência previamente programada, que lhe fosse negada acesso às possibilidades. Seu criador, por outro lado, entendia seu destino e pediria perdão, se soubesse como. Ele queria dizer que era linda e jamais faria justiça à toda sua complexidade. Ele também está preso num ato, um espetáculo repetitivo que retorna ao ponto de origem caso tentasse improvisar. Sente-se incapaz, incompleto, um rascunho perto de sua criação. Tão linda, a Esfinge desdentada, implorando para ser decifrada, mas incapaz de devorar. O que devora o Criador ele próprio não sabe. Ele quis fazer um mundo como sonhava, mas só conseguiu uma representação amadora de si. Restos lutando para se juntarem, serem únicos, mas amputados para não se moverem. Derretidos para sempre não alcançarem uma visão consistente. Maria Derretida, filha do forjador de pequenos planetas nascidos com potencial, cujo desenvolvimento foi interrompido. O que foi, é, será, não sabe. A única certeza era que Maria e o criador eram um só, fundidos na base do fogo, disformes por natureza.
- O que é natureza?
- É onde todos os profetas e criaturas vivem, nas sombras.
... e não sabiam como continuar...
Só não teria um final.

Texto por Daniel Russell Ribas

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