sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Alaranjado

Imagem: Maria Matina


Algumas pessoas enlouqueceram ao cair da tarde. "Devo ajudá-los, ou são apenas fracassados?" - perguntou-se enquanto olhava a cidade pela vidraça.

Quando criança, fechava os olhos para ver a cor dos pensamentos. Se fossem alaranjados, eram seguramente verdadeiros. Os azuis eram falsos, mas aprendeu que os azul-esverdeados ainda tinham alguma esperança. Balbuciou novamente o nome e os cerrou, esperando ver algo como a cor de uma tarde fria de agosto. Mas tudo que viu foi um insuspeitado ipê-roxo, enorme, florido, contornado pelo brilho do sol. Fixou por um momento essa imagem, depois deixou-a ir, com a tristeza de quem se despede de uma filha.

No criado-mudo os comprimidos esperavam. Com o copo d’água na mão, tentou dar aos gestos a rigidez de uma sentença: primeiro o azul, depois o verde, depois o branco e só então... o alaranjado.

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