sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Quando eu me apaixonei por Estefânia


Imagem: Marcelo Damm

Quando eu me apaixonei por Estefânia, não foi por causa do acento. Nem quando ela me apresentou seu pai, uma mistura de pastor evangélico com vendedor de seguros.
- Aí, se você aceitar Jesus agora, você ganha mil pontos no cartão de milhagem internacional.
Acho que me apaixonei por Estefânia quando descobri que ela andava nua em casa e achei aquilo lindo, poético. E nós, homens, nos apaixonamos por essas besteiras, desde que a mulher nos dê o mínimo de atenção, seja carinhosa e, claro, tenha um bunda perfeita.
Mas tudo começou a se tornar um inferno, ou melhor, um estágio acelerado do aquecimento global, quando Estefânia virou uma natureba radical. Evidentemente, ela me obrigou a seguir os preceitos dos “naturebas amigos” durante um mês, pra sentir como aquilo mudaria a minha vida. Realmente mudou: tive que entrar nas fazendas pra medir o butano dos puns das vacas, acordar às quatro e meia pra catar lixo no Jardim de Allah e ter um variado cardápio de hambúrguer de soja, estrogonofe de soja, ovo de soja, pudim de soja, bolo de chocolate de soja.
Minha última tarefa naquele mês, seria roubar um quadro que, segundo os “naturebas amigos”, ofendia a educação ecológica, pois colocava um pássaro dentro do mar, tentando confundir e ridicularizar os conceitos ecológicos de habitat e extinção. O roubo seria na casa do artista que tinha realizado aquela obra e a expunha publicamente, um tal de Marcelo Damm, que eles apelidaram de “Dãmonio”. Um trocadilho tão inteligente que tive vontade de enviar pro Zorra Total.
Mas no dia do roubo, quando eu já vestira minha touca ninja de plástico reciclado, fomos surpreendidos por uma operação da Polícia Federal de nome aramaico Enfim, fomos presos e indiciados, porque a facção criminosa “amigos naturebas”, além de queimar churrascarias na Zona Sul, traficava uma substância entorpecente ilícita chamada orégano selvagem, a milésima sétima droga mais consumida no Brasil.
Mas não tenho muito que reclamar, já que o juiz federal havia me dado um pena branda. Em parte, porque ele era fã de um filme estralado pela minha mulher, uma espécie de vídeo pornográfico da internet. chamado: “ A vizinha bunduda e o marido otário”.
Pensando bem, acho que ficar nua em casa, não era tão poético assim.

Texto: R. Martson

*****************

Obra acima: Imagem vencedora do segundo encontro + texto inspirado nela vencedor do terceiro encontro.

A imagem vencedora do terceiro encontro, de Bruno do Amaral, que inspirará os textos a serem apresentados no quarto encontro, que se realizará no dia 2 de fevereiro é a seguinte:


Próximo evento:

2 de fevereiro, terça-feira, das 20:00 h às 22:00 h,

Espaço Multifoco, Av. Mem de Sá, 126, Lapa.

Entrada: dois reais.

Um comentário: