quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Segredos

Imagem: Bruno do Amaral



Ele queria contar lhe um segredo. Durante dias seguidos esse pensamento o invadiu de modo avassalador. Sentiu-se angustiado, desconfortável; desistiu da infeliz ideia em alguns momentos; pensou que ela não daria o devido valor; analisou seus sorrisos espontâneos, suas frases às vezes inocentemente ambíguas, seus cumprimentos oblíquos e velozes; pensou se todo o desprendimento que ela demonstrava ter seria, de fato, genuíno. Sentiu dores no corpo, perdeu a fome, o sono. Treinou, em pensamento, o que diria, e como o faria. Pensou em desistir e, também, na razão de insistir. Entendeu que tudo que ele queria era mostrar que sua confiança nela era absoluta. Inabalável.


Ela, por sua vez, não pensava em segredos. Era espontânea como o fogo de um palito de fósforo riscado num dia sem vento algum. Falava o que vinha à cabeça, coisas do tipo: “sofro de um tédio absurdo, me diga o que fazer, por favor”. Tinha os olhos pequenos e o sorriso sempre largo e duradouro, cabelos escuros e lisos e a pele muito branca. Admirava quem servia às forças armadas, quem tirava férias em países da África Setentrional, quem se esforçava para fugir do lugar comum que era a vida cotidiana.

Ele, que nunca tinha servido às forças armadas nem tirado férias em países da África Setentrional, tinha certeza de que aquilo tudo duraria muito pouco.

Naquela tarde fria, os dois saíram no trabalho mais cedo. Tomaram café, riram, conversaram, combinaram de ir à casa do irmão dela para pegar alguns livros, se beijaram. Ele ainda pensou em desistir, deixar as coisas como estavam, superficiais e brandas.

Mas após um breve silêncio, ele disse: vou lhe contar um segredo. O único que guardo comigo. E ela escutou, observando-o com seus olhos miúdos e ardentes, e quando ele concluiu, ela sorriu, enternecida.

Ele a beijou mais uma vez. A última vez.

Ainda ficou a observando durante minutos, sem mais nada a dizer, decorando seu rosto de feições europeias. Entendeu que tudo que queria dela conseguira naqueles dois minutos daquela tarde fria de inverno. Em pouco tempo, antes mesmo de anoitecer, iria embora e a deixaria carregando seu bem guardado segredo. A partir de agora, absolutamente sozinha.

Texto: Danielle Costa

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