quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ensaio sem orquestra



Imagem por: Rudy Trindade

Foi diante de uma orquestra que se conheceram, mas não haveria de ser nada orquestrado entre eles. Do acaso do primeiro encontro, souberam preservar um ritmo para contornarem tantos sucessivos desencontros. Ele desejara uma moça desinibida e ela era reservada. Ela queria um homem galanteador e ele era apenas educado. Ela sonhara com um arquiteto que esboçasse no ar as formas mais impensadas e ele era um pedreiro fazedor de sólidas estruturas. Ele imaginara nela uma médica que lhe receitasse a fórmula definitiva para seu mal de viver, mas ela era apenas uma enfermeira sábia em compressas. Ela desejou uma casa de paredes firmes e brancas e um quintal com uma amendoeira e uma sombra serena. E conseguiu um modesto apartamento em Madureira. Ele sonhou com viagens a lugares improváveis e viajou aonde foi possível. O possível foi uma família de 4 filhos. Brigaram, se desentenderam, ele fugiu uma noite, ela chorou outra. Ela ficou, ele retornou. Ela quis que fosse, ele permaneceu. Ela se virou, ele deu uma volta. Olhavam em direções divergentes, mas que, como retas concorrentes, se cruzavam num único ponto. O salão da gafieira uma vez por mês, o prazer a que se permitiam. Amando a dança, dançaram uma vida inteira.

Texto por: Guilherme Preger

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