segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A igualdade é vermelha



Imagem por Fernanda Franco

A instrução chegou num memorando timbrado: “Infiltre-se nas barracas à frente, pergunte o caminho para um hotel qualquer que não seja muito famoso. Enquanto eles conversam, coloque a bolsa no chão. Assim que eles indicarem o caminho, agradeça e saia apressado, dizendo-se muito atrasado para o check-in. Quando eles olharem para você dizendo que você esqueceu a bolsa você já deve estar a mais ou menos quinhentos metros das barracas. Ative o detonador com o controle dentro do bolso e não olhe para trás. Vá por mim.”

Vesti uma roupa de turista depois de dois meses revezando uniformes pardos com meu nome e tipo sanguíneo cravados no peito, para o caso infeliz de não morrer de uma vez. Coloquei um chapéu quase caricato e óculos escuros que não se usam mais. Respirei fundo, coloquei a mochila nas costas e a bolsa na mão e saí em direção às longínquas barracas.

Uma hora de caminhada depois, cheguei ao local. Coloquei a mão no bolso, segurando uma pistola para o caso de ser atacado simplesmente por aparecer ali, como acontecera a vários outros soldados à paisana. Perguntei se havia alguém ali, e um homem correu lá de dentro, com cara de assustado.

“Gostaria de saber onde fica o hotel...”

“Depois, depois. Entre, o bebê está quase nascendo”.

O homem me puxou pelo antebraço e me sentou num banco improvisado. Lá dentro, gemidos de dor combinados com uma respiração pulsada. Uma mulher dava instruções na língua estranha. Acho que ela dizia algo como empurre, vamos, empurre, você consegue, já consigo ver a cabecinha, vamos, vamos, empurre, é um menino. Todos gritaram e bateram palmas, e um choro agudíssimo transformou algumas das palmas em lágrimas estridentes.

“O senhor me desculpe, senhor turista, mas chegou numa hora muito especial para nós. Venha, venha conhecer meu filho”.

Algo naquele homem me dificultava a encontrar respostas em meu próprio idioma, e fui com ele por dentro da casa. Mulheres cobriam o rosto assustadas, mas por baixo daqueles panos finos era possível ver o contorno de lábios sorrindo. Cortinas presas nas lonas separavam sala de quarto de banheiro de cozinha do mundo, mas no fundo nada era separado de nada, e aquela família simplesmente ocupava a própria terra, o próprio chão, o próprio mundo.

“Logo depois que o senhor chegou ele conseguiu nascer. Qual o seu nome?”

Fiquei mudo.

“Não me entende? Seu nome?”

Continuei mudo. E ele colocou um nome estranho na criança, e me explicou que ele significava “forasteiro” e era uma homenagem a mim.

“Café?”

A essa altura as bolsas pesavam nos meus braços e na minha alma. O homem falava compulsivamente sobre a vida naquela barraca, sobre a casa que perdeu na guerra, sobre a guerra em si, sobre seus irmãos mortos, sobre o mundo, sobre Deus. Eu apenas o escutava e concordava com a cabeça. Uma hora ele perguntou o que me trazia até sua casa.

“Onde fica o Hotel Central?”

“Hotel Central... Não sei. Vamos até a Vila, de repente alguém conhece.”

A Vila era um círculo de barracas de lona, ocupadas por famílias imensas que formavam uma família maior ainda. Crianças corriam de um lado para o outro, homens conversavam em tom de voz alto. Vez por outra um homem armado checava a normalidade da vida, os tais civis-militares, a tal milícia, os homens de quem eu tinha tanto medo, fazendo embaixadinha com uma bola de couro velha, fuzis pendurados no tronco.

O homem perguntou a um deles sobre o hotel. O soldado civil me olhou nos olhos. Talvez ali ele vira a morte de vários de seus colegas. Talvez ali ele antevira sua própria morte. Mas ele apenas sorriu e me apontou uma direção.

“Mas você não vai antes do anoitecer, não é? Essas estradas são perigosas em tempo de guerra. Um soldado pode pegá-lo desprevenido. Venha, há esteiras de sobra lá em casa, durma conosco”.

Coloquei a bolsa no chão da sala improvisada e me deitei numa esteira. Dormi um sono profundo, revigorante, sem sonhos. Fui acordado apenas pelo barulho dos tiros disparados por armas familiares. Olhei por uma fresta da lona e vi meu batalhão invadindo a Vila, sem perguntas, sem prisioneiros, atrás de um soldado inflitrado como turista europeu. Homens saíram de suas barracas com armas ultrapassadas e começaram a revidar os tiros. O recém-nascido se assustou.

Pensei em me esconder em outra barraca. Pensei em ser fiel à pátria e atirar nos inimigos que estavam me dando abrigo. Pensei em pegar em armas e defender o bebê forasteiro, mudar de lado, como nos filmes. Pensei em me entregar na tola esperança de interromper a batalha. Pensei em várias saídas, todas estúpidas, todas geradas em um cenário estúpido, criado por gente estúpida e vivido por gente de verdade. Gente que tem filhos, que se alimenta, que se veste, que ouve música, que faz embaixadinha. Homens tão iguais em lados tão opostos, teimando em se contraporem em vida para se igualarem na morte.

Nada havia a se fazer.

Joguei a bolsa no centro da Vila e apertei o botão no controle.

Texto por Saulo Aride.

5 comentários:

  1. ótima estréia de fernanda faraco com este desenho cheio de labaredas de vida ( ou morte?). parabéns ao saulo pela narrativa tensa, fluxo de (in)consciência q é um instantâneo das guerras q se travam por aí, mundo afora ou mundo adentro.

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  2. Imagem linda e forte. O texto traz tensão à imagem. Um post diferenciado, sem dúvida. Um trabalho de altíssima qualidade de ambos. Parabéns!

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  3. Gente, obrigada. Me sinto feliz por estrear aqui. Saulo, adorei o texto. Fui me envolvendo cada vez mais conforme lia. Não tinha imaginado cenas assim em relação a esse trabalho, vou passar a olhá-lo de maneira diferente... gostei muito!

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