segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Janelas


Imagem: Maria Matina


Durante algum tempo – movido pelo acaso e inocência desorientada – esforçou-se a habitar espaços de indecisão. O corpo a esmo explicava sua existência somente por responder às sensações que lhe chegavam, sem ousar qualquer escolha. Não desconfiava que fosse possível desejar janelas e suas bifurcações para outros estados de espírito. Acordar era lançar-se ao dia já quase com lágrimas nos olhos. Então decidiu fugir.

A primeira vez que fugiu, deparou-se com um bando de aves tristes que praticavam hábitos estranhos. Cada uma delas usava o próprio bico na missão de cortar as asas umas das outras. Feito isto durante todo o cansativo dia debaixo do sol, lançavam durante a noite um canto frio e agourento lamentando a perda do impulso de voo. No dia seguinte recomeçavam, incansáveis, a insistência cega de sufocarem a liberdade para a qual haviam nascido. Com essas criaturas ele aprendeu que a tristeza não surge fora do ser, mas a partir do momento em que este se nega à própria condição. E ele achou por bem voltar.

A casa ainda o esperava com os pais e os irmãos vivendo distraidamente em meio ao vento. Os pés ficavam cada vez mais longe dos olhos, de tanto que da noite para o dia os meninos cresciam. Dentro da casa, ele nunca criava hábitos, para que estes não o impelissem a querer permanecer. E aos poucos sentia seu corpo pedindo novamente para não depender tanto daquele amor que podia aprisioná-lo. Acordar era ainda muito difícil, embora lá fora o jardim crescesse tão vigoroso que os galhos curiosos muitas vezes batiam nos vidros das janelas como se quisessem entrar. Isso acalmava o espírito, mas ele sabia que ao se deixar fascinar correria o risco de ficar ali para sempre. Então decidiu fugir mais uma vez.

A segunda vez que fugiu, encontrou abrigo entre feras de uma docilidade jamais vista. Não compreendeu, a princípio, por que elas aceitavam abrigá-lo sem questionar sua natureza tão diferenciada. Com o tempo percebeu que, por mais que elas disfarçassem uma disposição agressiva para a vida, cada uma trazia, cravado à pele, um tipo específico de espinho. E todas secretamente contavam com ele para retirá-lo. E ele pensou que seria bastante delicado escolher qual das feras deveria ser primeiro beneficiada, pois agora era difícil distinguir o que era docilidade natural ou interesse em tê-lo como único possível salvador. E quem poderia garantir, afinal, que depois de ter sua grande dor aliviada esta fera não voltasse à sua condição original e o devorasse sem piedade? Por não saber o que era verdade ou mera simulação, decidiu voltar.

No caminho de volta, lembrou o jardim que o convidava a uma liberdade acolhedora. Lembrou que quando estava lá fora, a luz que emanava dentro da casa era tanta que sua alma respondia com a mesma intensidade. Foi quando compreendeu que as janelas são bifurcações para outros estados de espírito. E retornou em sua memória a uma eterna tarde de domingo em que ficaram – ele e a mãe – apreciando em silêncio a aquarela da paisagem desenhada pelo correr do vento entre as folhas.

Aquele pensamento era um céu pleno de azul em sua existência. E todo o seu ser se encheu de certeza. Decidiu a partir de então que, em vez de fugir novamente, construiria também para si uma casa com a mesma luminosidade disposta a convidar o jardim a entrar. Nem que para isso dedicasse a vida inteira.

3 comentários:

  1. ah, os desenhos maravilhosamente líricos e oníricos de matina q trazem ao clp um frescor "matinal". assionara souza soube escrever um txt igualmente lírico, onde uma dialética de partir e permanecer se estabelece por uma janela mágica. parabéns às duas!

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  2. Achei Maravilhoso também!!
    Bjs

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