quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Marleysson e Eu

Imagem: Bruno do Amaral.


Marleysson é meu cão, tá ligado? É um bom cão. Sente cheiro de porco de longe. Os puliça podem tá a quase um quilômetro do morro que ele já começa a latir o latido de aviso. Marleysson foi treinado e pra cada situação ele late de uma forma diferente. Quando chega sacolé não chega a ser um latido, mas uma respiração forte e alta. Quando brota da preta ele uiva. Se alguém importante, tipo um chefe de boca, morre, ele dá um latido esganiçado e triste. Mas quando são os porcos fardados seu latido é machão, fodão, altão, pressão, situação, ligadão. Os puliça fica tudo boladão. Quando chegam no morro já tá geral malocado.

Algum filho da puta dum X9 entregou o Marleysson. Mas mesmo tendo a descrição do bicho, os homi olharam pra ele e passaram direto. Jamais iam achar que aquele cóqui espanhol dócil, com cara de cão sem dono, era o soldado mais sagaz do movimento, mesmo tendo sido avisados antes. Puliça é mais burro que burro. E do que bandido também.

Agora os maluco, por ordem do governador, que dizem que é bicha (ou será que é o prefeito? Ah, político, quando não é ladrão é veado), querem ficar aqui de vez, a tal da... qual o nome dessa porra mesmo? Humidade pazcificadora, acho que é isso. Bem, por conta dessa humidade pazcificadora tá uma pressão boladona na favela. Os cara tão passando geral, até morador. Tortura, saco na cara, essas porra toda do filme lá, pra descobrir onde tá o Marleysson. Os homi já se ligaram que com o Marleysson vivo eles não toma o morro. Pra onde eles avança, o Marleysson late e sai correndo, eles não pega nem por um caralho. E os morador num entrega, nem os que num gosta do movimento, porque sabem que os filha da puta dos puliça, se pega, faz maldade com o bichinho. Ficou uma semana nessa, os puliça procurando o Marleysson, até que ele cansou da vida de fugitivo, foi pra rua e logo uma bacana o adotou. É justo ele querer descansar, mas agora fodeu, os puliça tão controlando quase tudo. Então, o que quero dizer é o seguinte: ô madama, ô piranha que tá com meu cão, acho melhor você devolver meu bicho se não, se eu descobrir quem você é, vou te passar, tá ligada? E mais, esse repórter de merda que tá aqui comigo, o Zeca Tá Amargo, vai continuar aqui até tu devolvê o Marleysson, tua vagabunda. Você tem dois dias pra dar um jeito pra ele aparecer de novo na comunidade, se não eu passo o Tá Amargo, morô? Mas antes disso pentelho todo mundo aparecendo de novo com ele de refém no horário da novela do Manel Carlos. E se o Marleysson não aparecer, sua vadia filha duma puta, pode ter certeza que eu vou descobrir onde é que tu mora e vou aí buscar meu cão e te passar. Sei que tu mora perto do morro. Se não devolver, é melhor nos próximos dias deixar as portas bem trancadas...

Texto: Renato Amado.

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A fotografia acima foi a vencedora de nosso Terceiro Encontro Aberto. O texto que a acompanha, foi o eleito dentre 7 apresentados no Quarto Encontro para compor post com a foto.

Em seguida, foi eleita dentre dez obras (sete fotografias, uma imagem digital, um desenho em aquarela e um vídeo) a foto abaixo, também de Bruno do Amaral, que inspirará os textos a serem apresentados no nosso encontro de março. Participe do nosso próximo encontro. Escreva um texto para a imagem abaixo e leve uma obra de arte sua para talvez ser eleita obra inspiradora de novos textos.

Lembramos que os vencedores, além de terem suas obras postadas neste site, são agraciados com vinte reais de crédito em produtos do Sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana.


Imagem vencedora do último encontro, de Bruno do Amaral. Quem quiser, pode levar um texto inspirado nela no nosso próximo encontro, em março.


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