sábado, 27 de fevereiro de 2010

O sonho


Imagem: Marcelo Damm

Sentiu-se exposto. Ela o havia exposto. Ele, que era tão bom em encarcerar emoções, agora estava ali, desdobrado ao avesso por ela, era certo que contra sua vontade. A vontade consciente pelo menos. Havia sonhado com os tempos de escola, quando ainda era um menino e não poderia imaginar o que a vida reservava para ele. Estava na aula de geometria descritiva, o professor o chamava ao quadro para resolver um problema cuja solução desconhecia em absoluto. Levantou, foi até a frente da sala e pegou o giz com a mão esquerda. De repente, olhou para o colega da primeira cadeira. Ele estava rindo dele. Rindo não, gargalhando. E depois o do lado. E mais um. E outro. E a turma toda. Num relance, as paredes da sala desapareceram. Agora a escola toda olhava pra ele e gargalhava. Os professores, os inspetores, o frei, o coordenador. Todos os alunos de todas as turmas de todas as séries. E de repente olhou para baixo. Olhou e se descobriu pelado. Tinha ido pra escola sem roupa, só com um tênis Adidas que tinha ganhado de Natal do seu avô. Acordou assustado. Os homens são assim mesmo, ele disse. Eles simplesmente não fazem isso. Expor-se. Que ideia. Arrumou-se e foi para o trabalho. Ao entrar no escritório, percebeu que todos olhavam pra ele. Alguns com cara de espanto, outros com cara de reprovação, alguns poucos com expressão de apoio. Olhou para baixo, queria assegurar-se de que não estava pelado como no sonho. Não estava. Vestia terno e gravata. Olhou em volta novamente. Ninguém prestava atenção nele. Estavam absortos em seus trabalhos. Entrou em sua sala. A tarde transcorreu normalmente. No dia seguinte, foi ao shopping. Precisava de umas camisas brancas para as aulas de corrida. De repente, todos começaram a olhá-lo. Riam dele. Mas aqui também ele não estava pelado. Estava vestido com uma camisa pólo amarela e uma bermuda branca que ganhara dela de aniversário. Estava paranóico, pensou. Uma senhora com duas crianças, uma delas no carrinho de bebê, riu dele. Comentou algo com as meninas, que apontaram seus dedos inquisidores para ele. Tinha ficado definitivamente paranóico. Agora estava exposto para o mundo. Todos podiam ver, ouvir e sentir suas emoções. Tudo o que tão bem guardara durante quarenta e quatro anos. Agora todos podiam ver. Era como se lessem sua mente (Será que ela lia sua mente?). Foi embora correndo. Por via das dúvidas, nunca mais voltou ao shopping. Também não foi trabalhar na semana seguinte. Comprou as camisetas pela internet, mas também nem precisaria delas. Abandonou a academia. E quando ela voltou de viagem, encontrou a fechadura da porta trocada. Nunca mais alguém aqui dentro, ele pensou. E dormiu em paz. E sonhou com as férias de sua infância na casa de sua tia-avó, os primos, os cachorros. Mas estava vestido. Nunca mais tiraria a roupa, nem em sonho, nem acordado. Enclausurou-se e decidiu: nunca mais caso!



Maíra Fernandes de Melo

4 comentários:

  1. ótimo maíra! ô damm este desenho esta melembrando os mijódromos "bom menino" da praia. mijar na frente de todo mundo,prazer ou vergonha? parabéns!

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  2. belíssima ilustração, belíssima! e que conto interessante, adoro essas paranóias, porque se odiá-las, não vivo mais!

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  3. Muito bom, Maíra! Delícia de ler!!!

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