sábado, 6 de fevereiro de 2010

Oh, Bia! (Ego blues)

         “O barco parava no píer, levado por vagas curtas, marulhando por entre a névoa, sons que velhos marujos acreditavam ser pedidos do mar. Velhos marujos ouvem o mar. Têm as vagas como mensageiras. Porém, um deles, romântico e curvado pela peso da paixão, mirava a negritude, pensando ouvir o nome dela, nos murmúrios das ondas.” Quanto escrevi isto no seu caderno de faculdade, eu sabia que não perderia o meu tempo. Não conheço muito bem as pessoas, mas pensei conhecer você. Eu ainda não me lembro de qual escritor roubei essas palavras. Mas o sorriso que você abriu quando contei que, na verdade, elas não eram minhas, foi a confirmação de que eu estava certo a seu respeito.
          Não consigo me lembrar em que ponto nos afastamos. Houve, tem que ter havido um ponto em que começamos a não nos conhecer mais. Tenho clara em minha mente a imagem da estrada. Ventosa e fria. Caminhamos juntos até encontrarmos o trevo, onde nos separamos. Não sei se a sua estrada está mais bonita que a minha. Mas tenho que admitir, Bia, que sinto tua falta.
          Pensei que conhecia você, mas na verdade eu não me conhecia. Nunca pensei que fosse capaz de amar alguém como lhe amei. Oh, Bia! Fiquei tão feliz por poder amar tanto! Talvez tenha sido este o meu erro. Foi um amor tão intenso que se auto-destruiu.
          Oh, Bia! Porque fomos nos transformar apenas numa lembrança de um casal feliz? Em um exemplo a ser citado nas conversas sobre os perigos do amor, da fragilidade das relações, da crise afetiva dos nossos dias. O que foi que houve? Quem errou? Eu? Você?
         Nunca mais confissões em frente a uma pizza e vinhos nas noites frias. Nunca mais os animado planos para os finais de semana. Nunca mais a felicidade serena das caminhadas na beira do mar ao entardecer, no verão.
         Esta tarde no trabalho, o telefone tocou e eu pensei que fosse você. E não era. Me lembrei dos tempos em que podia contar com um telefonema seu, sempre na mesma hora, para saber como eu estava, como estava sendo o meu dia, o que poderíamos fazer à noite...e, de súbito, me veio um pensamento terrível. Você nunca mais ligaria. Eu nunca mais ouviria a sua voz. E eu me senti tão sozinho. Sozinho por não ter você. Talvez leve milhões de anos até que a humanidade consiga saber o que fazer quando amamos quem estamos perdendo. E eu não sei, eu não sei, eu não sei...
          Se pelo menos você atendesse os meus telefonemas! Você nunca deixou de responder um recado meu. Você sempre estava disponível para mim, meu amor. Eu sempre pude contar com voc...
           A mensagem dela interrompeu seus pensamentos infelizes.
"Precisamos conversar. Me ligue assim que puder. Beijos."
Sorrindo, ele esticou o seu corpo num espreguiçar de prazer e despertar. Depois, correu para a areia. Um longo e profundo mergulho era tudo o que ele queria. Ela voltou a ligar e era o que importava. Era bom tê-la esperando. Era bom tê-la de prontidão. Era bom poder sempre contar com ela.
Agora, o mergulho. Longo e profundo. E depois, um dia inteiro a ser aproveitado. Porque a vida vale a pena. Não retornaria a ligação dela. Mas ela iria esperar. Como sempre fazia.

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