terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Tradição

Imagem: Diego Kaele.


Era no Aéreo que tudo acontecia. Lá era centro de lazer para idosos, os reformados que nunca deixavam de aparecer. Lá era o mercado onde eram vendidos desde peças até aviões inteiros. Lá era a agência de empregos onde os caras das encomendas especiais requisitavam os servicinhos extras. Lá era onde ficava o panteão de honra dos merecedores.
De vez em quando, funcionava como constava em sua razão social: Bar.
A qualidade da cerveja, embora isto tivesse pouca importância, era legendária.
Havia sido inaugurado, com o nome “Matilda”, até que o marido da viúva homenageada caiu no mar, lá ficando. Por problemas burocráticos, ficando ela sem a justa pensão, com a intenção de lhe prestar uma ajuda, vários pilotos, assim como mecânicos, começaram a frequentar o local.
A exceção eram os solteiros, pouco afeitos a aparecer em locais com tamanha concentração masculina.
Nesta noite, lá estavam todos os ainda vivos da esquadrilha Hórus. O símbolo era o deus egípcio homônimo, com corpo de homem e cabeça de águia. Este, como era de costume entre os deuses das pirâmides, trocava de departamento de acordo com a cabeça coroada da época. Tendo no currículo os cargos de divindade da guerra assim como dos céus, por sugestão do Capitão Afonso, apaixonado por Mitologia e patrono da esquadrilha, ficou impresso no emblema assim como no nome.
Fariam a primeira homenagem a Rogério, morto em missão noturna, no meio da selva. Algo dizia que ele não morreria velho. Certa vez, ao voltar de uma missão, de brincadeira, o Major já estava combinando com ele um looping a dois antes de iniciar a aterrissagem. Eis que aparece uma nuvem nigérrima do nada. Desistiram. Assim que chegaram ao solo, Rogério ia tirar seu cinto de segurança. Que cinto? Tinha esquecido de apertá-lo. Este era o Rogério.
Não havia nenhuma foto sua decente junto de seu aparelho. Assim tiveram que encomendar uma fotomontagem. A moldura de plástico, já pronta, trazia asas em seus quatro cantos e efígies do deus no centro das partes de cima e de baixo. Foi pendurada junto a do Brigadeiro Juarez. Não era pouca porcaria. Não poderia ser.
Poucos não tiveram a vida salva pelo baixinho. Todos saíram na porrada com o “Baixinho Nervoso”. Todos, até os mais fortões, tinham apanhado.
A tradição era de beber a cerveja, deixando um pouco para o homenageado, só que ao invés de derramar o do santo no chão, jogávamos o gole para o alto. Ele beberia com seus companheiros.
Dona Matilda, que em nenhum dia deixara de sorrir para os fregueses do caixa, de onde tudo via e comandava, também nunca se acostumava com estas cenas. Já com seus quase noventa anos, sua emoção, nestes eventos, costumava preocupar a clientela. Naquela noite, de mulher, além da proprietária e das garçonetes também estavam lá a irmã e a esposa de Rogério.
Terminada a cerimônia, iam todos às mesas e ao balcão. Só pensavam em ter sua foto bem ao lado a do baixinho.


Texto: André Tag - perfil.

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