sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Um Passeio com Edward

Imagem: Pilar Benet Domingos



Estava na Carolina do Norte. Havia ido visitar meu grande amigo Eduardo, que morava lá. Ele vivia em Wilmington, uma cidade mais ou menos pequena, com cerca cem mil habitantes, mas a maior da região do Cabo do Medo. Com um nome desses, não me espanta que não haja muitas pessoas vivendo por ali. Ciente de que eu gosto de passear em lugares remotos, meu amigo me recomendou que fosse às extremidades do cabo.

Fiquei numa pequena vila cercada de praias desertas. Embora próximas, a diferença entre elas era enorme. Enquanto algumas tinham um quê de paraíso tropical, outras eram tão sem graça quanto carnaval no primeiro mundo. Não resisti a caminhar ao sabor do vento pela mais bonita delas, aparentemente interminável. Iniciei a caminhada no fim da tarde e avancei noite adentro. O local era seguro e o forte, porém harmônico, ruído das ondas dialogava com meus pensamentos, agitados desde uma injusta demissão e um conseqüente pé-na-bunda.

A noite já reinava há incontáveis vagas quando, para meu espanto, vi pálidas luzes ao longe, envoltas por uma neblina marcante embora diáfana que parecia só existir lá. Talvez fosse a maresia que, combinada à iluminação, causava este efeito semelhante a uma serração. Excitado pela descoberta fui em direção ao píer que, para meu segundo espanto, tinha dois barcos atracados. Enquanto me aproximava, via embarcações saindo e chegando em intervalos erráticos. Ao invés de um pequeno mole perdido numa praia deserta, aquilo se anunciava como um próspero porto. Escondido daquela maneira só poderia ser dedicado ao tráfico de drogas. Este pensamento me fez hesitar, contudo, meu inato espírito aventureiro me impedia de retornar. E mais, a idéia de deparar-me com drogas, ao contrário de me assustar, me atraía – tinha esquecido meu baseado no bread and breakfast e não tinha doce. Aproximei-me sorrateiramente e quando estava a apenas uma centena de metros tive meu terceiro espanto: as embarcações eram todas veleiros. Enormes veleiros, com várias velas quase quadradas, semelhantes a caravelas - talvez efetivamente fossem caravelas. E cada uma que chegava pagava um tributo a um homem que usava um chapéu estranho e roupas que, ao menos àquela distância e à noite, pareciam medievalistas.

Após longos segundo não consegui pensar em nada e antes que sanasse minha aporia ouvi uma voz com sotaque britânico:

- Do you wish something, sir?

Olhei para trás e vi um homem barbudo. Ele vestia uma camisa de pano leve e branca, com uma jaqueta de couro marrom por cima. A calça, cinza, não muito larga, ia até um pouco além da extremidade dos canos das botas. Usava dois cinturões, cada um com vários coldres, ocupados por duas pistolas de modelo antiqüíssimo, uma espada e várias facas. Assustado, caí de quatro para frente, mas fiquei pouco tempo na posição em que Napoleão perdeu a guerra e logo tinha invertido a direção para a qual olhavam minhas nádegas, sem contudo, sair dos quatro apoios antes de caranguejar alguns passos para trás. Só quando me levantei, a uns três metros de distância, tive condição de responder, evidentemente também na língua local, puxando, contudo, para um formalismo britânico.

- Sorry sir, vim caminhando pela praia e parei aqui.
- E o que o senhor deseja, afinal?
- Na... nada. Já estou de saída.
- Ah... mas não assim tão rápido, sir. Afinal, o senhor é uma figura tão curiosa... Deve ter muitas aventuras para nos contar.
- Não, não senhor, apenas caminhava mesmo, sou apenas um turista.
- Turista... Hm... não conheço essa palavra... Talvez o senhor possa explicá-la melhor no meu barco.

Suspendeu-me pelo colarinho e, demonstrando força inesperada, pôs-me sobre seus ombros e me carregou para o maior de todos os veleiros, armado com... canhões!

- Rapazes, temos visita.

Homens maltrapilhos, com restos de trajes tão anacrônicos quanto do seu líder, me olhavam num misto de curiosidade e avidez. Percebi que a luz local era fornecida por lampiões.

- Escute, homem. – disse-me o comandante – Como o senhor se chama?
- Antônio.
- Sorry?
- Anthony.
- Pois bem, Anthony, esse porto foi conquistado por nós, então qualquer forma de vida ou de morte, ou de bem, que apareça por aqui é nossa propriedade. O senhor acaba, portanto, de ser declarado escravo da embarcação Queen Anne`s Revenge (gritos de glória). Um escravo bastante inútil, é verdade. Vejo que não é forte como os negros, rico como os mercadores ou sagaz como os marinheiros, mas seu traje, jeito e sotaque estranho despertam minha curiosidade o suficiente para mantê-lo vivo. Amanhã partiremos em campanha para Roanoke Island. Vamos em busca de tesouros deixados por colonos meus conterrâneos desaparecidos. Espero, pelo seu bem, que você seja útil durante a expedição, ou que mantenha minha curiosidade acesa, caso não queira ser descartado. Algo a dizer, homens?

Gritaria e algazarra.

- Ruuuuuuuum! – grita, por fim, o capitão.

A festança começa e eu sou levado por um dos comparsas a um porão que, quando a porta abre, calor e odor insuportáveis me esbofeteiam. Era como estar numa sauna que acumulava a função de fossa. Lá havia outros escravos que fungavam doenças e as tossiam de volta para o ambiente. As necessidades eram feitas nos cantos. Ficávamos ali trancados. Às vezes eram jogados poucos cantis e rações disputadas a tapas. Não entrava iluminação, havia apenas um lampião, sempre mantido em luz baixa para não gastar muito óleo. Se nos davam almoço e jantar, como parecia, essa era a única coisa que denunciava a passagem do tempo. Quando imaginei ser a manhã do segundo dia, fui chamado à cabine do capitão.

- Então, weird little thing, o que você tem para me contar? – perguntou enquanto brincava de cara ou coroa com uma grande moeda de cobre.
- O que o senhor deseja saber, capitão?
- Por que as roupas esquisitas?... de onde você é?... Você fala estranho.
- Sou brasileiro, senhor.
- Brasileiro? Quer dizer que é filho de portugueses, nascido no novo mundo? És crioulo, então?... Hm... Talvez você seja da elite, posso conseguir um bom dinheiro com seu resgate. Estranho, seu sotaque é bem diferente do dos portugueses que combati.

Tinha algo de insano nele. Eu sentia estar frente a uma pessoa extremamente temperamental cuja relativa amabilidade poderia, numa fração de segundos, converter-se em ira mortal. Por isso media, talvez até demais, minhas palavras.

- E você não fala não, é?
- O que deseja, senhor?
- Conte-me mais, por que essas roupas estranhas? – eu vestia uma bermuda tactel, uma camiseta branca escrito “Brazilian Soul”, Havaianas e uma pochete.
- É assim que se veste lá, sir.
- É, sempre ouvi dizer que no sul cultivam hábitos estranhos. Dizem que os senhores se deixam influenciar por índios e negros... Mas que colônia de merda! E como o senhor veio parar aqui na Carolina?
- Vim visitar um amigo.
- E o que faz esse amigo?
- Trabalha num bar.
- E não veio com nenhum parente? Diabo, para quem pedirei seu resgate? – resmungou para si próprio.
- Pode pedir para ele, tenho certeza que pagará.
- No, he won`t... Precisaria de alguém da aristocracia portuguesa ou brasileira por aqui. Esse homem sequer teria dinheiro para o resgate que pediríamos. É, acho que só me resta matá-lo, face à sua inutilidade. Mas ainda não estou certo. Marujo, levo-o de volta à Ala dos Fucking Slaves.

Logo que voltei para a pocilga iniciou-se uma fortíssima tempestade. Achei que ia morrer. Num dado momento tive a clara sensação de que o barco virara. Bati contra o teto e aos poucos fui perdendo a consciência. Não sei se foi em função da pancada, mas tive a impressão de que nos instantes que precederam meu desmaio reinava um completo silêncio.

Quando voltei a mim, tive a impressão de que a tempestade tinha sido um delírio. Tudo estava em seus lugares e os demais escravos não demonstravam qualquer alteração de comportamento. Viajei mais uma tarde, até que nos aproximamos de terra firme. Antes de desembarcarmos, contudo, o capitão decidiu que se livraria dos escravos inúteis e eu estava na lista. Contudo, antes que meu carrasco atirasse – graças a Deus ele era como personagem de filme, que gosta de fazer um discurso ao invés de simplesmente atirar na vítima e ir embora – saquei do meu coldre-pochete um iPhone. Não estava dando área, mas de qualquer forma já era bastante impressionante para aquele bando de loucos que viviam em algum século passado. Ele achou que eu era bruxo, o que me pareceu ser considerado bom, e me levou para o capitão. Mostrei a ele meus “poderes”. Tinha baixado um programa que simulava um raio X, ou seja, de acordo com o movimento do iPhone aparecia supostamente uma parte do osso da pessoa sobra a qual eu apoiava o aparelho, então eu o deslizava pelo corpo do capitão, fazendo-a crer que o telefone era dotado de raio X. Isso o impressionou a ponto de anunciar à tripulação que tínhamos uma arma secreta, um poderoso bruxo no barco, que seria muito útil, de modo que eu deveria ser tirado da Ala dos Fucking Slaves e bem tratado dali em diante.

Desembarcamos em uma praia deserta de Roanoke Island ao anoitecer e nos pusemos a caminhar segundo um mapa tosco. O capitão alertou que poderia haver todo tipo de inimigos na região, sobretudo índios cherokee, e em seguida acendeu um archote e o colocou sobre a cabeça, seguro pelo seu chapéu. Segundo um dos marujos, aquilo era apenas para dar-lhe uma feição sinistra e intimidar os inimigos. Realmente, sua barba espessa e negríssima ficava ressaltada em meio à escuridão da noite e seus traços lombrosianos eram marcados pelo jogo de luzes e sombras promovido pelo archote.

Caminhava com os lunáticos na certeza de que não encontraríamos qualquer tesouro, mas, tinha esperança, talvez algum sinal de civilização. Ficava atento ao meu iPhone, na esperança de que ele desse sinal a qualquer momento. Durante a noite, enquanto fazia meu turno, falei para o guarda que me acompanhava que ia ao mato satisfazer minhas necessidades. Não voltei. Iluminava com a luz do celular o meu caminho, até que cheguei a uma caverna. Era uma gruta sinistra, com um par estalactites e outro de estalagmites em sua entrada que me davam a impressão de estar sendo devorado por alguma fera. Dentro dela, uma névoa tão marcante e diáfana quanto a do porto onde encontrei o Capitão. Algo me impingia a entrar. Caminhei com cuidado, esquivando-me de morcegos que me aterrorizavam com rasantes. Minhas canelas afundavam em lodo e havia um forte cheiro de mofo. Contudo, poucos metros adiante a névoa desapareceu e junto com ela o odor. Ainda havia alguns morcegos, mas algo mudara na atmosfera e eu sentia certa familiaridade e conforto. Caminhei um pouco mais e saí da caverna. Meu celular deu área. Chamei 911.

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