terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vigor

Imagem: Guillermo Frene - perfil


Desde que voltei a usar fraldas, não tem dia que eu não me lembre do livro "Retrato do Artista quando Jovem" de Joyce. É aquilo da primeira página mesmo. Quando a gente mija fica quentinho. Depois, a temperatura vai caindo até ficar geladinho. Mijo agora com gosto, desde que a gorda virou minha acompanhante. Gosto de dar trabalho pra ela. A uretra arde um pouco mas vale muito a pena.
É tudo "inho". "Tá na hora do leitinho". "Vamos botar o casaquinho?" "Come a papinha todinha". Por que ela não vai à merdinha?
Pelo menos parou de se queixar dos seus problemas.
Gostaria que meus ouvidos estivessem iguais ou piores à minha visão. Não aguento mais essa chata. Desde o derrame, ninguém entende o que digo e já não consigo mais escrever. Não tenho como mandar a torturadora pro olho da rua. Faço as piores caretas possíveis. Não adianta. Minhas caretas não devem ser mais assustadoras do que minha expressão normal. Só me resta torcer para que ela faça besteira que nem a outra. É esta a mais insuportável das dores que eu tenho que tolerar
Lembro bem da entrevista de Freud que Conceição me mostrou. Ele dizia que as dores da velhice tinham a função de fazer a gente desejar a morte. Já, naquela época, pensei a mesma coisa que penso hoje: Um fraco!
Essas dores são o teste final. Deus fica sabendo quem é forte e quem é fraco. Se você quiser morrer é fraco. Do contrário, forte. Simples assim.
Eu quero viver.
Sofrimento é teste. Olhe na Bíblia. As broncas de Conceição? Teste. Comida dietética? Teste. Seu time não ganhar campeonato por anos e anos? Mesma coisa.
Freud não era só fraco. Criou fracos. O menino não fica quieto ou não quer estudar? Manda pro psicólogo. Eu levei foi pancada mesmo. A pancada não só me emendou, me deu força.
Quis dar o mesmo aos meus filhos. Primeira pancadinha e Conceição ameaçou me abandonar. O caráter das crianças foi para as cucuias. Conceição, que era professora, estudou Psicologia na faculdade de Pedagogia.
A fraqueza vai dominar o mundo. É mais um motivo pra eu continuar nele. A visão está turva mas estou vendo tudo.
Amor livre? Que catzo é isso? Comi um monte de mocinhas. A única diferença é que agora perderam a vergonha. Vergonha é força. Betinho papou suas menininhas e se achava mais que eu. Um merdinha. Só trabalhou depois que terminou os estudos. Assim mesmo, não leu Joyce. Na minha família fui o primeiro a me formar e o último a ler Joyce. As pancadas de meu pai tiveram seu efeito.
Da Leninha o que é que eu posso dizer? Fraca! Quase trinta anos mais jovem que eu e sofre mais com a velhice que eu. Já fez um monte de plásticas. Vai fazer mais. Conceição teve mais dignidade. Até porque eu obriguei. Pediu para reduzir o seio. Não deixei.
É o teste. Eu estou vendo o mundo acabar. Eu agüento. As meninas de hoje se vestem que nem as piranhas do meu tempo. Minhas bisnetas inclusive. Estou aqui, não estou? E os maconheiros? E as tatuagens? E as...
- Agora vamos para a nossa casinha fazer o nosso dodozinho.
Vai ver o cocozão que te espera.
Sim, quero viver muito. Nem que seja só pra cagar e mijar na fralda.

Texto: Andre Tag - perfil

4 comentários:

  1. Este texto não é fraco, não! É forte e deve permanecer bravamente no mundo literário! Ler os pensamentos do velho-protagonista foi uma sacada muito interessante.
    Ao "xará" chileno, ¡qué bela toma en blanco y negro!

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  2. Muito bom... uma forma diferente de ver os pensamentos de um homem velho e doente. a foto maravilhosa, felicidades ao fotografo chileno!!!

    Elizabeth Soto Southerland

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  3. A foto tá demais, o texto muito bem bolado. Um velho conservador, de saco cheio, ligando o f***oda-se na medida de suas limitações. Assustador foi ouvir o Tag dizendo que o texto poderia ter ficado melhor...

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