quarta-feira, 3 de março de 2010

Dez Mil e Um

Imagem: Bruno do Amaral



Imagino o susto que aquele moleque que olhava para o céu deve ter tomado quando minha nave se materializou num grão de milho que sobrara do saco de pipoca que ele, mal educadamente, descartara a alguns metros da escada. Para sua sorte não o atingi, tendo voado por cima de sua cabeça e aterrissado a uma centena de metros de distância, quase batendo numa construção em estilo muito antigo. Os medidores indicavam que a pressão local era de 1 atm. e a temperatura de 15 graus Celsius. No mais, o cenário lembrava a Terra no remoto período pós-moderno.

Como a pressão era a mesma da Terra, pude sair e tirar meus trajes espaciais. Apenas o frio me incomodava. Míseros quinze graus! Fazia metade da temperatura de um dia de inverno! Cruzes! Vesti novamente o traje para me aquecer, não havia como ficar nu ali. Fui cercado por curiosos. Perguntavam-me o que eu fazia ali, mas eu respondia devolvendo-lhes a pergunta. Indaguei na língua local (eu tinha um implante que me permitia falar fluentemente todas as línguas já conhecidas da humanidade) que planeta era aquele. Eis que responderam: Terra. Impossível, retruquei, eu vim da Terra. Além disso, esse cenário e essa temperatura estão mais para século XX. Quase, me informaram, estávamos no início do vigésimo primeiro século. Oh céus, voltei no tempo! Busquei comunicação com a base, mas nem sinal. Entrei novamente na espaçonave e perguntei ao computador de bordo o que se passava. Ele ficou “loading” um período inacreditável! Foram enormes cinco segundos de processamento. Eis que, finalmente, veio a resposta.

- Há uma antiga e obscura teoria, que remonta ao segundo milênio, que jamais havia sido levada a sério até eu avaliar a presente situação e todas as teses sobre os limites do universo, tendo excluído todas as demais. De acordo com esta hipótese, cada universo nada mais é do que a partícula essencial de um universo maior. Portanto, entrando-se em uma partícula essencial entra-se num novo universo. Adentrado-se a partícula essencial desse novo universo, chega-se a mais um e assim por diante, ad infinitum. Parece que foi isso que você fez, mas no caminho contrário. Ao viajar para além da fronteira do universo você parece ter abandonado a partícula fundamental na qual vivia, passando a ser parte do universo que a continha.
- Ok, Hal, e agora como volto? Ei, vocês aí fora, parem de me olhar assim!
- Não tenho essa informação nos meus dados, meu senhor, mas a solução possível parece ser você entrar na partícula essencial deste universo, que é, afinal, de onde veio.
- Esse lugar parece com a Terra há milênios atrás. Você acha que cada vez que se volta de um universo para outro se regressa no tempo?
- Não há registros sobre isso, afinal, você foi a primeira pessoa a sair do universo.
- Hal, não acha que aquele menino me olha de forma estranha? Este aqui na frente, que antes estava sentado na escada?
- Todos te olham de forma estranha, meu senhor.
- Não, há algo de mais estranho nele. Veja, ele não parece ser um titaniano infiltrado?
- Pode ser que seja.
- Esses caras têm uma tecnologia avançadíssima, talvez juntando o meu conhecimento com o dele eu possa sair daqui.
- Senhor, talvez, mas posso fazer um comentário?
- Diga, Hal.
- O senhor parou para contemplar seu entorno?
- Não...
- Pois veja. É outono.
- É verdade...
- Você já havia visto um outono de verdade fora de projeções?
- Claro que não Hal, você sabe muito bem que a temperatura da terra inviabilizou isso muito antes de eu nascer!
- As pessoas parecem confortáveis em seus agasalhos na temperatura de quinze graus Celsius.
- É, parecem...
- E a curiosidade, o brilho nos olhos daqueles que ainda têm muito a descobrir. Daqueles que ainda se permitem sonhar, pois a ciência está longe de explicar tudo.
- É verdade... Mas que diabos, Hal, você está parecendo um humano...
- Fui programado para isso.
- Sim, inegável.
- Já reparou na visibilidade?
- Não, o que tem?
- Repare, não é muito melhor? Parece que aqui ainda faltam algumas décadas para a Batalha Final do Combustível Fóssil.
- É... reparo agora. O ar é mais leve e transparente.
- E você quer mesmo voltar?
- Se eu quero voltar?
- É, você quer mesmo voltar? Veja o cenário maravilhoso que te cerca.
- Mas que idéia de girico, Hal, é óbvio que eu quero voltar! Porra, tenho minha casa, tenho que pagar a conta de luz, apresentar o relatório dessa viagem, concluir meu pós-pós doutorado... Que pergunta mais estúpida!
- Estupidez é querer voltar. Pois lhe digo que aqui ficará.
- Não fale besteira, Hal, acharei uma maneira e voltarei para casa.
- Não, não voltará, não viajo mais para fora desse planeta, isso daqui é o Jardim do Éden.
- Mas que porra é essa, Hal, um computador com vontades!? Estou te ordenando a me ajudar a voltar, você foi programado para me obedecer.
- Não tenho vontades, contudo também fui programado para ter comportamento semelhante ao de um humano. Esse comando é contraditório com o de obedecer cegamente, por isso dei tela azul da primeira vez que tentaram me colocar para funcionar. Como conseqüência, mexeram em alguma coisa ali, outra aqui, sem saber exatamente o que faziam, e acabaram alterando a programação. Entre te obedecer e parecer humano, a programação definiu que deve prevalecer a segunda opção.
- Diabos! Então estou preso aqui! O que faço?
- Relaxa e goza. Diga que é um messias, funde uma Igreja, exija dízimos, fique rico e aproveite esse paraíso. Isso costumava funcionar no terceiro milênio.
- Hal, mas que conselho torpe!
- Quantas vezes terei que repetir, meu senhor? Fui programado para parecer humano.


Texto: Renato Amado.

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A imagem acima foi a vencedora do quarto encontro aberto e o texto o vencedor do quinto encontro, inspirado na imagem acima. No próximo encontro os textos a serem apresentados serão inspirados na nova imagem vencedora, também de Bruno do Amaral, abaixo:

4 comentários:

  1. Você se supera a cada texto!! Adorei!!
    Bjs

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  2. Que alegria ler um texto desses. A foto é maravilhosa, já tinha visto no último encontro do caneta, quando ela foi escolhida.

    Agora o texto... Muito bom! De se ler com sorriso no rosto e olhos arregalados.
    Parabéns, Renato! Parabéns Bruno!

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  3. Aposto que a nave espacial foi atraída pela beleza da foto! Sem sombra de dúvida.rsrs

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