sexta-feira, 5 de março de 2010

Eternidade

Quando ele chegou em casa mais tarde, numa quarta-feira que parecia mais fria que o comum, apenas beijou minha testa e correu para o banho. Não era mais o Álvaro. Na verdade, ele continuava sendo o Álvaro, mas não era mais meu, ou eu não era mais dele.

Quando ele disse que precisava passar um fim de semana viajando a trabalho, vi em seus olhos o brilho tácito das pessoas que não sabem mentir. Olhei sua mala e não vi ternos ou cintos ou sapatos de bico fino. Ele saiu. Rasguei todas as roupas de trabalho que ele tinha no armário.

Quando ele fez amor comigo sem me olhar nos olhos, evitando qualquer posição em que meu rosto fosse inevitável a seu olhar, pedi para que me chamasse de outro nome. “Qual”? Ele se assustou. “Carolina”. Precisava chutar algum. Ele continuou sem dizer qualquer palavra.

Quando ele passou a manhã de domingo lendo os classificados, cortei parte do meu antebraço com a faca de carne, apenas para medir seu susto, e em seu susto os restos de seu amor por mim.

Quando ele fez curativo nos meus cortes, pedi para que ele os beijasse. Álvaro nunca foi chegado a qualquer tipo de machucado. Uma vez desmaiou ao ver uma gota de meu sangue menstrual no seu lado do lençol. Mas ele beijou meus cortes. De olhos fechados.

Quando ele ligou para um amigo de infância, que mora em São Paulo, e gargalhou com ele ao telefone, vi toda a libido do meu homem se transformando em pulsos telefônicos interurbanos. Subi nua na janela de nosso apartamento. Álvaro me agarrou pelas pernas, fechou a janela e não se preocupou em cobrir minha nudez. Meu corpo não passava de mais uma roupa qualquer para seus olhos.

Quando ele me pediu para conversar e perguntou o que estava acontecendo conosco, disse que ele era o pior homem do mundo por ser tão falso e tão infiel, mesmo tendo a mulher que todo homem sonha em ter. Ele chorou e paramos de conversar. Pensei ter ensinado algo a meu homem.

Quando ele chegou em casa com flores e uma garrafa de vinho, sua culpa me pareceu óbvia demais, e suas desculpas me pareceram dolorosas demais, e a faca me pareceu perto demais, e sua pele me pareceu macia demais, e seu sangue me pareceu quente demais, e seu corpo me pareceu frio demais.

Tudo era demais no meu homem. Tudo. Acho que na eternidade não teremos mais segredos. Na eternidade não existem amantes, nem esta infidelidade velada que habitou durante anos uma casa tão harmônica. Na eternidade não há nada disso. Há apenas Álvaro. E eu a seu lado, a partir de agora.


Texto: Saulo Aride


Imagem: Rudy Trindade.

4 comentários:

  1. q bela foto esta do rudy! um instante do clique q a plasticidade da imagem preserva eternamente. o encontro entre a masculinidade e (sua) fragilidade. não é este o tema do bonito conto do saulo?

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