terça-feira, 16 de março de 2010

Magma

Finalmente ele voltaria a uma praia. Estava excitadíssimo! Havia mais de uma década que não o fazia. Se lamentava por ter, caxias, saído tarde do trabalho nos dias de verão de 2010. Se soubesse o porvir teria mandado as obrigações às favas para aproveitar seu último verão de praia. O único problema de lembrar-se do maravilhoso verão de 2010 era que tal memória era seguida pela lembrança dos lamentáveis fatos ocorridos nos meses de dezembro a março dos anos seguintes.
Meteorologistas diziam, durante o verão de 2010, que aquele era um verão histórico. A afirmativa estava correta, mas sem dúvida não suas razões. Contudo, infelizmente, isso foi percebido tarde demais. Quando demos conta, pessoas se aglomeravam em shopping centers e eram expulsas às dez da noite a pauladas pelos seguranças. Acabavam dormindo ao relento. Não apenas os desafortunados, que não tinham condições de comprar um ar condicionado, dormiam sob o luar, mas absolutamente todos, já que o sistema elétrico nacional não deu conta do consumo de eletricidade e houve um colapso.
Impossibilitado de abastecer a todos, o ministro de minas e energia decretou que a preferência era para lugares públicos, como restaurantes e shopping centers. Contestável que fosse a medida houve quem gostasse, pois acabou promovendo, num primeiro momento, um aquecimento também da economia. Contudo, no verão seguinte, em 2012, estes lugares não eram apenas mais freqüentados, mas ocupados por uma legião de desesperados de todas as classes sociais. Os mais ricos chegavam a pagar centenas de reais para ficarem hospedados em salas privadas. A presidente da república dizia que estava solidária à situação dos cariocas e passou a construir centenas de casas populares na serra. Contudo, evidentemente, não havia como evacuar toda aquela população, de modo que, seguindo o exemplo de países nórdicos, mas por motivo inverso, construiu-se uma cidade subterrânea. A monumental obra exigiu quase 80% dos recursos do PAC 3, bem como um assombroso numerário do governo estadual e do município. A iniciativa privada também teve que coçar o bolso: para conseguir alvará para funcionar no subterrâneo só colaborando com as obras. O Banco Mundial e a União Européia também se solidarizaram e fizeram empréstimos com taxas de juro diferenciadas. Três anos depois, o Rio de Janeiro funcionava exclusivamente sob a terra no verão. Caminhar na superfície significava a morte, caso o tempo de exposição ultrapassasse os trinta minutos. Por isso, os principais prédios passaram a ter ligações diretas com o subterrâneo. Em nove anos, não era apenas no verão que a superfície ficara inabitável, e a expectativa de vida para quem se expunha ao sol da estação mais quente passou a ser de apenas seis minutos, por isso, a essa altura, todos os prédios da Zona Sul já tinham uma ligação com o subterrâneo. Praticamente toda a população de favelas e boa parte dos moradores da zona norte e da zona oeste feneceram. Barra da Tijuca, São Conrado e Recreio fizeram um sistema próprio, não interligado com o resto da cidade.
É essa a vida que leva, hoje, o carioca, se é que se pode chamar assim cidadãos que fogem da praia e do sol e só o vêem através de vidros de prédios blindados ao clima externo. Não só o carioca, aliás. Passados já vinte e cinco anos do histórico verão de 2010, o último em que se pôde ir à praia na então Cidade Maravilhosa, o mal do clima já atingiu dezenas de cidades litorâneas de todo o mundo. A África, continente sem recursos, tornou-se um lugar praticamente deserto. As mortes naquele continente, segundo dados não oficiais, alcançaram a casa do bilhão.
Por isso, me regozijo. Após anos de trabalho árduo juntei recursos suficientes e poderei voltar a ver a praia, algo que só havia feito em minha infância. O Canadá, hoje país com clima equivalente ao do Rio de Janeiro de há vinte e cinco anos, oferece as praias com as mais agradáveis temperaturas. Saudade da brisa morna do verão 2009/2010...

Texto por Renato Amado




Imagem por Fernanda Franco

7 comentários:

  1. Gostei muito Renato, espero que você não esteja prevendo o futuro.
    Vou olhar com mais carinho para nossos escaldantes verões.

    ResponderExcluir
  2. hehehe... delícia de ler, delícia de ver. muito bom!

    ResponderExcluir
  3. Hahahahahah! Concordo com o Anônimo... :D

    ResponderExcluir
  4. renato, boa fábula do irreversível aquecimento global, cuja prova foi este último verão. mas ótima mesma foi esta imagem fervilhante da fernanda.

    ResponderExcluir
  5. Vi a imagem ampliada agora. É realmente espetacular. E tive a impressão de ver pessoas correndo e andando de bicicleta nas chamas. Não sei se é viagem minha. Parabéns!

    ResponderExcluir