quarta-feira, 31 de março de 2010

A Mulamba da Casa Rosa

Imagem: Bruno do Amaral


Não é só porque aquela mulamba veio do Rio de Janeiro que pode querer mudar o rumo da vida da gente, da vida de todos, da vida da cidade. O dinheiro que ela ganhou por lá, ganhou fazendo o que a gente faz por aqui desde que o mundo é mundo. E os homens que ela teve por lá não devem ser mais cheirosos do que os daqui, porque senão, ela não tinha voltado.
Maldita hora que ela veio me visitar e eu reclamei que precisava de um dinheiro pra fazer um banheiro melhorzinho, porque o da casa estava muito velho! Foi a deixa que ela precisava pra me encher os olhos com a proposta de “reforma total” em troca da sociedade. Acabou que a reforma total foi pintar a casa de rosa, construir uma suíte que é só dela e colocar os azulejos do banheiro antigo até o teto. Aí, mudou tudo!
Eu acho a maior graça! Ela chegou botando banca e trocando o nome de tudo. Puteiro agora é Pinque Rause, foda virou programa e até caralho ela agora chama de pênis. Os homens daqui também acham a maior graça! Ninguém chama camisinha de preservativo, boquete de felá...fêla...felação(!?) Os putos acham graça, mas se derretem pra mulamba e acabam achando que trepar é outra coisa, uma coisa antiga e fora de moda. Sei não, mas não gosto dessa frescurada toda. Comigo é pau dentro ou pau fora.
Não quer mais nem um trago da pinga do lugar, trouxe um monte de garrafas de vinho champanhe que ninguém pode tocar e eu queria saber com que dinheiro ela vai pagar aquele desparrame de calcinha e sutiã de estampa de tigre, de zebra, de vaca, tudo cheio dos rococó e das pedras preciosas. Qual o puto daqui do sertão que vai pagar três vezes mais pra dar uma bimbada com uma mulamba que até já tomou muita Benzetacil? É o que eu digo.
Mas ela é engraçada, disso a gente não pode falar. Saiu daqui menina. Deflorada, mas menina, uma cabrita ainda. Passou uns anos na estrada, foi pro Rio de Janeiro e voltou agora cheia das novidades. E tem muita história pra contar. E o pior é que conta. Ela diz que os homens no Rio de Janeiro são muito gostosos, mas só os que não precisam pagar. Porque os fregueses não entendem muito do negócio não. Querem logo coisas diferentes, estranhas, coisas que não são muito de homem, sabe como é? E quanto mais cheirosos e mais arrumados os caras são, mais dengo fazem, mais esquisitices pedem e menos homens parecem. Mas pagam bem pra caramba.
Aqui no sertão, a grande maioria que vem e paga, paga pra comer mesmo, pra se desafogar, pra se divertir. E a gente acaba se divertindo também. Sem contar aqueles que viram quase da família porque a gente pega o avô, o pai e o filho! Amém.
E a mulamba cismou que vai ter freguês vip! Pode uma coisa dessas? Eu não devia ter dado sociedade pra ela. Agora, diz que eu não sei de nada, não tenho tino pro negócio, não sou moderna. Eu não entendo. Dei de comer pra ingrata, ensinei os segredos que toda mulher deve saber e agora sou antiga? Já viu puta ser antiquada ou moderna? É. Porque puta é puta e vai ser sempre puta, sem nada de diferente, sem nada de modernidade. É a profissão mais antiga do mundo, não é? Diz que ta até na bíblia. Então, pronto.
A gente ri, a gente bebe, a gente trepa e faz toda sorte de coisa. Até onde eu sei, os buracos ainda são os mesmos e o que se faz com eles não pode mudar tanto assim. E o resto também não teve alteração nos últimos dois mil anos: boca é boca, pau é pau, peito é peito e dedo é dedo. Me diz onde é que pode entrar modernidade nisso?
A mulamba chega aqui, escolhe freguês – que ela chama de cliente, pinta minha casa de rosa e diz que é porque vai fazer história. Diz que lá no Rio de Janeiro tinha um puteiro que se chamava Casa Rosa e que era bem freqüentado e que já virou até filme e que a nossa Pinque Rause ia ser a Casa Rosa do Sertão...
Daqui a pouco começa a função e a mulamba não volta. Agora deu pra isso, atender a domicílio, como é mesmo que ela fala? Delíveri. Isso já está me dando nos nervos. Sai com uma maleta cheia de coisa de plástico, um monte de creme. Acho até que ela atende as madames da cidade que não podem se comprometer.
As minhas meninas enfeitam a casa, dão alegria e fazem os cabras gastarem um pouco mais com uma bebidinha e coisa e tal. Ela não entende isso. Ou entende, mas quer desvirtuar. Diz que o investimento sendo maior, o lucro também é maior. Porra, então vai trabalhar na Caixa Econômica Federal, lá é que se fala assim!
Melhor é eu sair dessa porta, ir lá dentro ver como estão os preparativos pro fundunço da noite, porque daqui a pouco escurece e a casa vai ...como é mesmo que ela diz? A Pinque Rause vai bombar!!!

-->Texto: Maria Emilia Algebaile

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O texto acima foi o vencedor do nosso último encontro, realizado ontem, 30/03. Foi inspirado na imagem acima, vencedora do encontro anterior.

Após a eleição do texto escolhemos nova imagem para inspirar os textos que serão apresentados no próximo encontro. Pela quarta vez seguida, deu Bruno do Amaral, com a imagem abaixo:




Inspirem-se!

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