segunda-feira, 29 de março de 2010

O Desfiar da Tarde

Desfazer a tarde

como se destrança uma tela

ou como se desfia um tecido.

A tarde, o que fazer dela?

Seu único erro foi ter sido

e foi. A tarde é tão frágil,

feita de matéria imponderável,

onde ela se sustentaria

se não nos arames de luz do dia

ou nas ondulações de tênue aragem?

A tarde não tem voz própria,

incapaz de dizer sua história,

ela não pode se defender da voragem

irreversível do esquecimento.

A tarde não teve testemunha

e seu desaparecimento

não pode ser evitado à unha.

A tarde, seria preciso amá-la

para guardar seu sopro sem fala

mas nenhum afeto tem mãos tão estreitas

e inútil é tentar o enlace

de sua diáfana e fugidia carne.

Desnecessário será desfazê-la,

pois a tarde vai embora sem alarde

e nem deixa um rastro, um traço.

A tarde foi um tempo, agora é espaço

que, vazio, apenas se trai, tanto arde.


Texto: Guilherme Preger

Imagem: Maria Matina

2 comentários:

  1. Gostei muito do texto e da imagem.
    São ambos muito delicados.
    Parabéns aos dois autores.

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