domingo, 21 de março de 2010

Passividade Pulmonar



"Olhou para o relógio, 6h14 da manhã. Fez o cálculo do dia e decidiu: mais meia hora na cama não ia fazer mal. Estirou o braço direito pro lado até alcançar o maço de Marlboro que escapuliu - como isso?- quase para o meio do quarto. Mormaço. Nem estava com sono. Curtia essas primeiras horas que eram de sua exclusiva posse. Já pensou se incendeia tudo nesse quarto? Do jeito que tem papel solto por aqui. Fechou a mão em concha pra acender o cigarro, o barulho do isqueiro dava uma espécie de tiro de largada no dia. Tsssk! Foi!!! Era assim que o professor de natação gritava quando ele era piá. Olhava tanto pro cara pensando no exato momento em que ele ia gritar Foi! que a coisa toda se tornou uma espécie de muda competição.

Aquele sim era um perdedor convicto. Conformava-se por ter um bom físico e, sempre que podia, mordia os pés das meninas quando elas saracoteavam na piscina. De sua parte, não levou a sério a natação. Era mais porque a mãe insistia que ele precisava fortalecer os brônquios. Essa coisa de mãe. Agora que tinha os pulmões tratados, enchia-os de nicotina desde as primeiras horas. Lançou o olhar para a nuvem de fumaça que incensava o ar do quarto. Que dia é hoje mesmo? Sexta. Sexta-feira. E foi fumando. Porra é essa, meu? Sexta-feira já?! Repassou a semana. Cabeça sobre o braço esquerdo em cima do travesseiro. Com o direito coçava os pelos do peito. Mais uma baforada, virou pra olhar a luzinha do relógio: 6h37. Fez as contas, deu 24min acrescentados do 1 minuto que demorou pra somar. O cigarro estava a menos de 1/3. Deu uma geral na sua lente-submarino de quarto pra ver se avistava o cinzeiro atrás de alguma anêmona. Ali! Esticou o pé direito. Precisava se alongar. Se ao menos trepasse umas três vezes por semana. No começo do namoro, ela bem que queria todo dia. Agora ele tinha que fingir que não estava afim pra ela poder achar que as mulheres também necessitam de sexo e que o feminismo... Essa baboseira toda. Cachorrinha mais linda essa que ele achou na rua. Uma boa bisca de mulher. Mas estava ficando cansada para a lida. Fazer o quê? Insistir? Isso é que não. Pelo menos tinha alguém para baixar os lançamentos. Minha cama. Meu reino.

Ultimamente o esquema era: comida, fumo, flato e sono. E quando dava, ver filme com a cachorrinha. Sem contar as horas que ficava cuidando da banquinha de revistas do pai. Era bom. Assim lia todos os jornais e pegava os cigarros que quisesse. Mais um pouquinho e conseguiria puxar com o dedão. Lembrou aquele filme Meu pé esquerdo. Esquerdo? Vejam como são as coisas, num filme o Daniel Day-Lewis come a Juliete Binoche, noutro é um pintor paralítico. É o que é. Acendeu outro cigarro, a conversa estava boa. Virou 15° para avistar o relógio: 6h47. Já era. Jogou o cobertor pesado fora do corpo. Acordar exige tantas modalidades esportivas. Lá estava ele girando as pernas para se livrar do calor. Isso sem contar aquele filme em que o cara era escravo de um paquistanês. Minha adorável lavanderia. Caiu feito um pato com esse título. Entrou no cinema por engano. Achou que era uma dessas películas de sacanagem com a mulherada molhadinha e suas saias entre as coxas. Tragou comprimindo os lábios num riso. E lá vinha arrastando-se numa sofisticada tática bélica aquele maldito facho de luz que exatamente às 7h26 dos dias de sol desenhava um traço quente e volumoso do seu ombropescoço à testa. Venha! Pode vir. ´Tou de boa. Quem era mesmo que falava esse Tou de boa? A primeira vez que ouviu achou que o cara estava falando francês. Toute de Bois, repetiu até virar um mantra. A bagana nisso beliscou-lhe. Ah, maldita impiedosa - agora vai ver só o que acontece com os traidores. Matou-a sem dó no fundo do cinzeiro. Tudo conta ao tempo. E tudo conta o tempo. Contra o tempo: contratempo. Tinha também passatempo - que virou nome de biscoito. Levava pra comer depois da natação um pacotinho inteiro.

Hoje não aguenta nem sentir o cheiro. Eiro/ Eiro. Int/ Ich liebe dich. As pontas dos dedos já estavam amarelas desse vício. Os vícios transparecem. Mas a filhadaputagem é algo que ninguém percebe. Ficou brincando com o Zippo fazendo um som tarantino. Pode crer, se pudesse cair no dia direto pra dentro de um filme, ia ser o Reservoir Dogs. Ainda antes do almoço. Girou o corpo na cama arrastando-se em meia posição parabrisa. Esticou os pés até encaixar certinho dentro dos chinelos. Cravados 7h45. O corpo quente. Deu duas tossidas e juntando todas as forças - por fim: ergueu-se. Curvado em C mirou as dobrinhas da barriga branca e cheia de sinais. Quase que faziam quatro. Não chegava a ser uma pança. Era um cara magro. Se tivesse que cuidar do corpo queria ser tipo o Rock, mas no I. Depois a coisa fica meio chata. Os braços estirados cotovelos com joelhos. Esfregou as mãos. Bocejou. Pronto: Acabou o dia! Ao trabalho"


Texto: Assionara Souza


Fotografia: Marcos Semola, www.s4photo.co.uk

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