quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bordel Cardeal




Imagem: Rudy Trindade



Na noite em que assassinaram a dona do Bordel Cardeal, Afrânio estava passando pelo pequeno vilarejo onde ocorreu o crime. Depois de cumprir muitas léguas em seu velho caminhão, precisava de um descanso. Barba por fazer, corpo dolorido e coberto de suor e poeira da estrada – a vida não estava fácil para quem trabalhava por conta. Estacionou seu veículo na garagem do Auto-Posto; o barulho do pistão de freio sempre lhe dava um pressentimento. Fez o sinal da cruz, catou seu estojo de asseio e jogou uma toalha limpa por sobre os ombros. Saltou da boleia para o chão e o ar frio da noite obrigou-o a contorcer o corpo num arrepio. Acendeu um cigarro e abriu a vista para compreender melhor para onde o destino lhe trouxera. Mais parecia um povoado abandonado.

Era uma noite dessas em que a escuridão engole a escuridão e as parcas luzes dos postes quedam-se falidas. Habitações pacatas denunciavam uma paisagem esquecida no tempo. Um desses lugares que se mantém pela insistência dos velhos que não se arriscam mais a procurar um futuro distante de suas raízes. Provavelmente em tempo de férias povoa-se de juventude sem opção de lazer que é levada pelos pais a conhecer antigos parentes; ou mesmo daqueles viajantes que fazem uma breve parada e continuam seu percurso estrada afora.

Nenhuma alma viva apontava senão um moço sonolento atrás do balcão - dentro do restaurante do Auto-Posto as luzes fluorescentes marcavam a eternidade funcional dos serviços 24horas. Embora bastasse virar o corpo em direção contrária e novamente submergir na escuridão do vilarejo. Ao se encaminhar para os lavatórios, Afrânio percebeu uma leve música manifestar-se no vento. Depois de lavar-se, juntou toda a roupa suja num saco e amarrou bem a boca. A vontade que tinha era de sempre jogar fora os trajes marcados pela sujeira dos dias. Como se com isso pudesse se livrar das razões pelas quais havia se sujado. Nem sempre era possível. Mirou sua cara ao espelho e decidiu investigar de onde vinha tal cantoria.

Seguindo o a trilha do som, Afrânio encaminhou-se para dentro da escuridão. Passou por ermos fétidos em que cães insones fuçavam alguma sobra intragável e ganiam leve ao passo do visitante, sem ameaçá-lo. Eram todos criaturas da noite. As mãos de Afrânio já fervilhavam, ávidas por alguma novidade que alimentasse o instinto de sentir-se vivo. Nisso, deparou-se com uma cruz abrasiva como se feita toda ela de um fogo vivo. Era ali a fonte da música incessante: “Bordel Cardeal”. A inscrição quase não se fazia notar tamanho o contraste do crucifixo vivo que orientava as almas que se perdiam por aqueles caminhos. Afrânio pensou que talvez devesse ter deixado uma parte do dinheiro dentro do caminhão. Agora já estava ali, não ia mais voltar. Afinal estava mais do que protegido. Qualquer um que tentasse atingi-lo poderia terminar bem mal. Ficou surpreso consigo mesmo por ter identificado uma música que mesmo ali parecia quase um zunido surdo. Achegou-se mais, adentrando o recinto.

A porta entreaberta era ninada por uma nesga de vento que soprava levemente sem força suficiente para fechá-la de vez. A velha vitrola engasgava num trecho como se há horas estivesse executando aquele insólito refrão. Ao chão da sala, uma mulher vestida de organdi vermelho, em decúbito dorsal, esvaía todo o sangue do corpo. O dia em breve ia amanhecer destacando as cores sufocadas pela noite. Aos poucos, até a cruz em fogo vivo perderia sua força.



Texto: Assionara Souza.

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"Neste mês celebramos um ano de Caneta, Lente & Pincel. Por isso, resolvemos fazer uma brincadeira. Se nosso conceito é produzirmos obras de arte inspiradas umas nas outras, nesta rodada potencializamos isso, de modo que a obra que inspira um texto é também inspirada numa imagem, numa pintura rupestre, a obra primeva. Veremos, no século XXI, surgirem na internet diferentes consequências artística daquilo que foi produzido na infância da humanidade. Obras de arte não só são eternas, como continuam produzindo efeitos. Curta as diferentes leituras feitas por nossos colaboradores."

8 comentários:

  1. Então tu estás por aqui também. =)

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  2. "A vontade que tinha era sempre de jogar fora os trajes marcados da sujeira dos dias. Como se com isso pudesse se livrar das razões pelas quais havia se sujado. Nem sempre era possível."

    Bom demais!

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  3. Também achei o melhor trecho do texto. :) Só esta faltando a pintura pré-histórica no post! ;))

    E a foto do grande Rudy, sempre inspiradora!

    Ótima ideia de aniversário, parabéns a todos!

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  4. Assionara Souza.
    Muito bom mesmo, gostei.
    e o trecho já mencionado pelos colegas, SUPIMPA!
    abraços

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  5. Rudy e amigos do CLP:

    Que bom que vcs gostaram. Eu confesso que a foto está muitíssimo acima das minhas possibilidades de tradução literária. É uma imagem inesgotável, como daquelas de que fala o Barthes. Mas dá um medão olhar muito, porque é bem possivel que ela engula o olhar daquele que olha. O que não seria nada agradável. Uizis.

    Parabéns a todos. A edição está um luxo!

    Assionara

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