sexta-feira, 30 de abril de 2010

Encrenca Literária



Enquanto o café não chega, relata sua aflição ao amigo:

“Cara, preciso escrever um conto para o blog Caneta, Lente e Pincel e não está rolando.”
“Justo você que escreve tão facilmente... O que acontece? Crise criativa?”
“Não é bem isso. É que, você sabe, eu costumo escrever contos policiais ou de suspense. E no projeto Caneta, Lente e Pincel você desenvolve uma história com base na imagem que o artista de te manda. Eu recebi uma fotografia do Marcos Sêmola desta vez.”
“Entendi. E aí, qual é o problema com a imagem?”
“Problema algum. Inclusive ela é incrível. É uma cena de torcida de jogo de futebol. Aí que está a encrenca. Você me conhece. Eu não entendo nada de futebol. Nunca entrei num estádio.”
“Porra, é verdade! Mas melhor ainda. Você vai poder instigar seu papel de escritor, escrevendo sobre um assunto distante da sua realidade! Onde está imagem? Me mostra?”
“Ah sim, claro. É esta aqui ó. Não vai dar certo, cara. Acho que vou enviar um email para os organizadores do blog dizendo que desta vez eu passo.”
“Porque você não se inspira naquele seu tio que se sentia excluído no ambiente de trabalho porque todo mundo comentava sobre as partidas e campeonatos de futebol?”
“Ah, o tio Wilson! Nem lembrava dessa história. Você tem boa memória hein? Mas não acredito que renderia um bom conto. Como transformar isso num enredo interessante? Meu tio, assim como eu, não entendia bulhufas do certame.”
“Exatamente! Mas e hoje ele não é um super torcedor e amante do futebol?”
“Ele aprendeu a gostar né cara. Para se enturmar no trampo, chegava em casa todo dia e ia atrás das informações dos jogos. Anotava os resultados num moleskine. Também copiou a escalação de todos os times do campeonato brasileiro. Aí, quando surgia o assunto na empresa, ele corria para o banheiro ou para um lugar seguro do prédio e dava uma olhadinha em suas anotações. Assim ele passou a ser um cara extremamente informado sobre tudo o que acontecia. Com o tempo essa prática foi se tornando natural e ele passou a decorar os placares.”
“Incrível! E passou até a gostar de futebol! Não é? Poxa, e você ainda acha que isso não rende um bom conto? Você pode detalhar todo a rotina dele. Começa descrevendo o Wilson, o que ele gosta, como foi parar nesta empresa. Explica por exemplo que ele era redator e amante de cinema e artes plásticas. Acho importante traçar um perfil do personagem para que o leitor entenda porque ele nunca se interessou por futebol.”
“É! Posso ir demonstrando seu interesse aumentando no decorrer do conto. Contar por exemplo como foi a primeira vez que ele foi com os colegas assistir a um jogo ao vivo. A sensação de arena com gladiadores.”

O garçom chega com um bulé e duas xícaras. Abre um lugar na mesa, afastando as garrafinhas de água com gás e as revistas de literatura pulp. Para não perder o foco na história, ele continua contando a idéia enquanto o garçom serve o café.

“Ele pode começar a jogar as peladas com os colegas no sábado a noite também. Um momento importante de confraternização.
“E para aumentar a dramaticidade, você pode dizer que a mulher do seu tio começou a ficar chateada com seus períodos de ausências.”
“Isso! Inclusive ele muda seus hábitos até mesmo em casa. Passa a acompanhar os jogos todos os domingos e adia as idas ao cinema que estava acostumado a ir com sua mulher semanalmente. Os livros passam a acumular encima da mesa. Tudo o que Wilson mais gosta de fazer então é sentar de cueca na sala, assistir as partidas de futebol bebendo uma latinha de cerveja e xingando a tv.”
“Perfeito cara! Está aí o seu conto! Só escrever!”
“Putz, não vou conseguir. Não consigo escrever uma história que não tenha detetive, morte ou serial killer. O meu lance é mesmo este. E se fosse um mistério envolvendo um torcedor? Perseguição na arquibancada? Uma tentativa de assassinato de um empresário por um matador de aluguel na hora do jogo?”
“Cara, você precisa ampliar seu leque de opções. Não pode passar a vida toda escrevendo contos policiais. Veja, é sua oportunidade de se aventurar por outro estilo.”
“Um de meus maiores defeitos é o medo do fracasso. Eu evito começar qualquer coisa que não domino completamente. Entende? Fico supondo a reação dos leitores. Aí toda essa preocupação me faz procrastinar. Levo dias para começar a escrever. Este conto, por exemplo, eu poderia ter escrito há um mês atrás.”
“Cara, fracasso é ilusão. É relativo. Cada um tem um parâmetro de fracasso. Porra, e não têm problema algum em fracassar. Faz parte do processo. Imagine se você tivesse desistido de escrever quando começou, lá atrás. Naquela época do conto O Pé de Cinco Dedos. Que você enviava por email.”
“Tem razão, man! Pensei outra coisa. E seu escrevesse esta nossa conversa, transformando em conto?”
“Como assim? Um escritor sem idéia para um conto de futebol conversando com o amigo num café?”
“Isso!”
“Muito batido. Não acho uma boa idéia.”

De repente o amigo sente-se enjoado.

“Está tudo bem cara? Você está ficando verde! Está sentindo alguma coisa?”

Ele cai da cadeira, desmaiado. Leva consigo um copo que se estraçalha em milhares de cacos no chão rente ao corpo. Tudo indica que o café estava envenenado.


Texto: Fabiano Vianna
Imagem: Marcos Sêmola


6 comentários:

  1. Este blog está sempre me surpreendendo. Bacana demais, Fabiano! Parabéns!

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  2. Eu adorei o texto... Todos estão de parabéns, é surpreendente ver cada post, um melhor que o outro aqui!

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  3. Marcos: Cara, que bom que gostou! Sua fotografia é do caralho! Ficou divertida a história né? rs
    Rudy: Valeu man!
    Guilherme: Poxa, que bom ler seu comentário! E fico feliz de ter surpreendido com meu post.
    É isso aí! O Caneta, Lente e Pincel é um projeto muito inspirador mesmo! Vida longa! Abraço a todos!

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  4. ahahahahahaha. Muito engraçado! Esse final... put*a que pariu! Matou a pau.

    Quanto à foto do Marcos, analisando-a bem, tive a impressão de ter visto uma cruz de malta no meio daquela galera. Se estou certo, odiei essa imagem! ;)

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