segunda-feira, 12 de abril de 2010

Faxina





Imagem por Maria Matina


Eu me lembro exatamente daquele dia. Lá se vão muitos anos. Na verdade, dias e anos foram conceitos que surgiram algum tempo depois daquela conversa.

Deus convocou a todos e disse: “Pessoal, criei vida num daqueles planetas”. O burburinho tomou a sala de reunião. O sorriso divino misturava ironia e a galhardia de quem não tinha noção ainda dos efeitos do que acabara de fazer.

Logo depois veio a discussão sobre quem deveria ficar encarregado de cuidar dos novos seres. Muitos se ofereceram num primeiro momento, mas repensaram suas ofertas ao escutar que Deus os havia feito à sua imagem e semelhança. Lidar com um Deus já era por demais complicado, e administrar um planetinha cheio deles seria simplesmente inconcebível.

Deus decidiu ficar de olho pessoalmente em sua nova criação. A nós caberiam as funções de sempre. Vida que segue, não se importem com os novos brinquedinhos divinos.

Ocorre que minha humilde função tornou-se mais ingrata nesta nova realidade. Sou uma espécie de faxineira, encarregada de manter o asseio e a limpeza da criação. Eu movimento a poeira astral de um lado para outro, eu mantenho os planetas sempre do mesmo jeitinho, para que Ele não fique insatisfeito. Sempre fui uma funcionária aplicada ao meu trabalho.

Contudo, colocar mini-deuses morando num dos milhões de planetinhas complicaria demais a minha rotina. Como limpar aquele terreno cheio de oceanos e montanhas com aquelas criaturinhas no meio do caminho?

Deus sugeriu que fizesse grandes faxinas periódicas, em datas por ele escolhidas. O melhor dos mundos para mim: sem qualquer remorso, teria pouco trabalho com aquele planeta.

Comecei a observar os pequenos deuses. Logo de cara eles adivinharam, de alguma maneira, que nós existíamos. Deus ria muito com isso, vendo que em cada lugar eles o viam de uma maneira. As paredes das cavernas onde moravam eram cheias de desenhos ilustrativos, ora transformando a Deus num animal gigante, ora numa força amorfa, ora num senhor muito idoso. Todos ríamos bastante, e as criaturinhas, embora de temperamento explosivo, pareciam bem amáveis.

Muito tempo depois, Deus decidiu ser o momento de uma primeira faxina. “Lave o planeta com água”, Ele disse. Fiquei preocupada com os habitantes. Ele disse que já havia separado um casal de cada um dos animais e uma família de mini-deuses, que sobreviveria à faxina morando num barquinho.

Ainda um pouco temerosa, abri a pia e coloquei o planetinha debaixo. Tentei manter os olhos fechados por todo o tempo, mas por vezes os abria e enxergava o sofrimento daquele grupo de criaturas que lutava para se entender. Eles estavam habitando um lugar inóspito sem que nenhum de nós lhes tivesse explicado nada, ou dado nenhuma dica.

Terminei a faxina me sentido banhada em seu sangue vermelho.

Relatei para Deus minhas emoções, e Ele prometeu se aproximar dos seus “meninos”, como os chamava. Mas havia algo naquele planeta que me parecia sombrio, sinistro. No bebedouro, todos comentavam o medo em trabalharem sabendo que havia um planeta cheio de mini-deuses furiosos à espreita. Outros me perguntavam o motivo de criar vida para ter que acabar com ela na hora das faxinas, e isso me doía muito porque quem executava as faxinas era eu. Houve casos de ciúme, punidos severamente por Deus. E curioso que um dos funcionários demitido por ciúme das criaturas tratou de no dia seguinte se aproximar delas. Vai entender.

Pedia sempre a Deus que me movesse de cargo ou que cancelasse as faxinas no planetinha. Ele me deu uma licença, mas nem passeando pelas paisagens negras do Universo consegui me livrar do vermelho-sangue que havia preenchido minha existência. Sentia-me vermelha, impura, suja, culpada por destruir algo que não criei.

Deus tentava me consolar com seu mesmo sorriso de sempre. Ele disse até que em uma das partes do planetinha eu era vista como uma deusa, e que, para os habitantes deste local, a destruição causada pelas faxinas seria apenas uma forma de permitir que eles se aperfeiçoassem. Shiva, esse era o nome que me deram. Não gostei. “Sou da limpeza, Deus, não tenho nada a ver com morte e recomeço de ninguém”. Deus ria.

A próxima limpeza está agendada. Estou com medo. Já disse a Deus que posso me rebelar e não cumprir com meu serviço. Ele diz que me entenderia, mas sugere que faça a faxina aos poucos. Quando terminar, ninguém terá percebido, e eu não sentirei todo aquele sangue abraçando a minha alma. Tomara. Já estou com o planetinha nas mãos. E já sinto algo de vermelho por perto.

Texto por Saulo Aride

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Neste mês celebramos um ano de Caneta, Lente & Pincel. Por isso, resolvemos fazer uma brincadeira. Se nosso conceito é produzirmos obras de arte inspiradas umas nas outras, nesta rodada potencializamos isso, de modo que a obra que inspira um texto é também inspirada numa imagem, numa pintura rupestre, a obra primeva. Veremos, no século XXI, surgirem na internet diferentes consequências artística daquilo que foi produzido na infância da humanidade. Obras de arte não só são eternas, como continuam produzindo efeitos. Curta as diferentes leituras feitas por nossos colaboradores.

7 comentários:

  1. Reproduzo uma frase dita num papo com mais dois amigos: "O Saulo é um caso de talento evidente."

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  2. nossa, o clp chegou ao auge com este conto "teológico" do saulo. a faxina divina é um bem ou um mal? razões pra refletir. como sempre os desenhos da matina representam o lirismo em cores. parabéns ao clp pelo seu 1o niver.

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  3. Meus caros, mesmo de longe, continuo acompanhando e trocendo por todos vocês e pelo CLP, este templo digital das musas das artes! :D

    Parabéns a todos pelo primeiro ano de vida, muito sucesso e longa vida ao CLP! E parabéns pela brilhante ideia de voltar, em plena internet, aos primórdios de nossa gênese, fazendo arte com o que foi a primeira arte humana, as pinturas nas cavernas! Parabéns mesmo!

    Abraços e beijos a todos, Guilherme.

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  4. PS: O texto do Saulo é profético! 2012 vem aí!!!! Hahahahahahaha!!! Que forma lúdica de encarar a criação, a origem da humanidade e as catástrofes! Parabéns à dupla (ou ao trio, considerando a pintura do nosso tatatatatatatatatatatatatataravô?)

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  5. (O_o)
    Tô pasmo. Bom demais o texto, a imagem, putz!!!

    Parabéns pros dois!

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  6. Sem palavras. O texto e a imagem estão simplesmente maravilhosos !!!

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