segunda-feira, 5 de abril de 2010

O espelho, o buraco e ninguém mais que importa

O espelho reflete uma imagem. Alguém, ninguém. Não pergunte que não respondo. Não responda que não escuto. Ninguém, alguém, talvez. Uma imagem horrível a ser refletida pela eternidade. “É algo físico?” Não. “É algo metafísico?” Não. “É algo verdadeiro?” Talvez. “O que vês?” Um imenso vazio, tão profundo, tão desolado, tão familiar. Como não quebra com tamanha falta a dançar em sua frente? Como não quebra com tamanho desespero a vazar sobre sua face? “Não entendo nada!” Sim, não entende nada, nem uma coisa sequer. Move-se e não entende. Age e não entende. Reage e não entende. Canta e não entende. “Nada sei!” Nada soubes, nada sabes, nada nunca saberás. Ele ama ela. Que piada! “Não, isso sei, isso tenho de, pelo menos, saber!” Como aquele que nada sabe pode a ela amar? Como aquele que ninguém conhece, nem mesmo a si próprio, pode ter uma ela a amar? “Não, ele ama ela. Todos amam ela e nada a isso alterará.” Alguém? Todos? Quem? Ninguém ama ela. “Não. Não. Isso é tudo que entendo, isso é tudo que sei, isso de mim tirado não será.” Não há entendimento sem ação, não há saber sem naufrágio, não há um ter sem um conter. Ninguém ama ela. Não há ela. Ninguém ama ninguém. “Sim, há!” Não, não há! “Sim, há!” Não, não há, mas se há, onde ela está? “Não sei.” Por que com ele não canta? “Não sei.” Por que com ele não dança? “Não sei.” Não sabes? “Não.” O vazio refletido no espelho forma um buraco tão grande, mas ainda tão pequeno se comparado aquilo que não pode refletir. Um buraco escuro afastado de tudo aquilo que a imagem não pode emitir. “Não pode emitir por nada mais existir!” Não, não pode emitir por na imagem nada mais querer se apresentar, por a ela não querer acompanhar. Um buraco isolado, mas também tão confortável, onde pode se esconder. “Como aquele que caminha pode nascer, se antes se mata?” Não me pergunte, pois lá está, no buraco, escondido, apertado, sozinho, confortável, envolto numa coberta de esquecimento, de inutilidade, de mentiras. Mentiras que tornam minúsculo o imenso espaço, cheio do desnecessário, fazendo a água o encher muito mais rápido. “Que água?” A do rio, que sai daquilo que não vê, daquilo que se cega pela imagem não conter. Tanta água a encher, com tanta mentira a molhar, com tanto desespero a banhar. “Se à imagem não acompanha, como lágrimas pode ter?” “Como o não visto pode sentido ser?” Pois, o que agora não acompanha, antes o fez e depois clama a ser feito. “Os olhos!” Não, as mãos! “Mas, não serão os olhos a observar aqueles que ao afogado virão?” Não, não serão. Serão as mãos que virão. “Mas, não trarão consigo a visão?” Não, a imagem nunca será vista, por vista nunca poder ser. Só as mãos a ela poderão chegar, só as mãos a ela poderão tocar. “O afogado sobreviverá?” Não, é claro que não. “Mas então, o que tocarão?” Aquele que caminha. “Quem?” Ninguém, não é óbvio. “Ninguém, alguém?” Não, alguém, ninguém. “Talvez?” Não. “Queria que ele quebrasse!” Talvez já esteja quebrado. “Mas se o está, como saberá?” Não pode, nunca pôde, pois a imagem nunca vê a imagem, só o reflexo se faz visto. E se o espelho está quebrado, nada a este fato alterará, nada a este fato saberá. “O espelho?” Sim. “E ele?” De que importa ele, só ela realmente importa. “Ela que é amada?” Talvez. “Ela que é amada por ele?” Talvez. “Ele ama ela?” Talvez. “Claro!” Mas, ela ama ele? “Não sei.” Não sabes? “Não quero saber.”


Texto por: Daniel Matos.



Imagem, inspirada no texto, por Paulo Resende - perfil.

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