sexta-feira, 23 de abril de 2010

A outra que habita




Imagem: Fernanda Franco


Há outra que habita em mim.

Ainda não a conheço, mas eu sei que ela existe, e que toma meu corpo e faz coisas que eu jamais faria. Há outra que habita em mim, e eu não sei como conviver com ela, nunca me dei bem com vizinhos, e não há porta que nos separe, não posso dizer, olha, meu telefone está tocando, já me vou, e sair e me trancar porque ela também estará do lado de dentro.

Ainda não sei o seu nome, mas sei que ela é arredia, porque todas as minhas tentativas de contato deram em nada. Ela foge, se esconde em recantos da minha mente que não consigo alcançar. (e que coisa absurda isso, de não alcançar espaços de pensamento e de memória que são meus, que me pertencem, que vieram das minhas vivências...)

Sei que ela é muito esperta, pois usa do meu corpo quando bem entende, e o leva para lugares onde eu jamais iria. E depois se esconde, vai dormir, descansar um sono de beleza tão profundo, que nem todos os meus gritos e pensamentos e insônias conseguem perturbar.

Ela me perturba. Não diretamente, porque nunca estivemos juntas no mesmo espaço. (de novo, que absurdo, minha mente não é uma sala de estar que eu possa dizer, oi, venha, sente-se, quer uma água ou um chá, calma lá, não é assim que funciona...) Mas perturba saber que ela está aqui, que existe, e que não tenho nenhum controle sobre ela.

Será que algum dia terei? Será que algum dia conseguirei dizer a ela que saia, que desapareça, ou que fique dormindo para todo o sempre, para que não me incomode mais?

Às vezes acho que ouço a sua voz. Às vezes penso que consigo enxergá-la no espelho. Ultimamente tenho passado horas em frente ao espelho, tentando vê-la, tentando trazê-la à tona enquanto ainda tenho o controle, para poder conversar com ela, convencê-la de ser mais cordata, mais tranquila, ela que vá correr no parque para gastar essa energia, e que volte calminha, que me deixe trabalhar, que me deixe pensar, que me deixe viver a minha vidinha em paz.

Essa outra que habita em mim, escondida, nunca mostra o rosto, nunca deixa rastros para que eu possa encontrar o lugar onde se esconde, levar a luz aos espaços, abrir as janelas, tirar o pó, reorganizar as memórias, as vivências, selecionar o que é aprendizado e jogar todo o restante fora. Mas ela não deixa, fica mudando de lugar, fica brincando comigo, me fazendo de boba dentro da minha própria mente.

Essa, que habita em mim, que ainda não sei quem é, que não se mostra, que se esconde, toma o comando à revelia da minha vontade. Expulsa-me e age com propriedade sobre o meu corpo, e sai, batendo a porta atrás de si, deixando-me no escuro, sozinha, amarrada, e o que posso fazer é esperar por ela, esperar que ela volte, juntar os pedaços, remendar as roupas, avaliar os estragos enquanto recupero e tomo conta do corpo.

Não sei por onde ela anda, mas traz de volta, na minha boca, gosto de suor e saliva, gosto de noite e de bar, e aí não são nem três nem quatro vezes que tenho que escovar os dentes, a língua, enxaguar tudo, na esperança de que volte a canela e a menta de que tanto gosto, com que já me acostumei.

Rebelde, essa que não conheço, parece que quer me provocar, testar meus limites, ver até onde eu aguento conviver com ela sem perder totalmente o controle. Acho que é esse o seu plano, tomar conta, passar a ser a dona de mim, me trancar no espaço escondido que ela habita. (esse lugar que não sei onde é, ainda não descobri, mas preciso encontrar, para varrê-la dali, antes que ela realmente tome conta...) Mas eu tenho medo do escuro, tenho medo desses recantos desconhecidos, dessas passagens secretas da sala de estar ao quarto do pânico, tenho medo de não encontrar forças para sair, será que eu saberia traçar os caminhos por onde ela anda, para retomar o poder?

Tenho medo dela, que habita em mim sem a minha permissão. Ela, que é uma escuridão na minha mente que não sei por onde começa nem onde termina. Tenho medo dela, e medo do escuro. Na verdade tenho medo dela, porque ela me deixa sempre no escuro, nessas suas andanças pelo meu corpo, com o meu corpo, pelo mundo. Sem luz e sem saber, sem poder voltar, à espera de que ela durma de novo, de que ela se canse, de que o dia amanheça.

Tenho medo de um dia descobrir que na verdade sou em quem a habita, sou eu a forasteira, a invasora, que só entra em cena quando ela dorme para fazer a faxina, dobrar as roupas, organizar o armário. (se um dia eu descobrir que afinal o corpo não é meu, que o corpo é dela, que no espelho quem me olha é ela, e que estou presa neste espaço finito da sala de estar... como eu faço para sair daqui?)

Texto: Cristina Moreira

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"Neste mês celebramos um ano de Caneta, Lente & Pincel. Por isso, resolvemos fazer uma brincadeira. Se nosso conceito é produzirmos obras de arte inspiradas umas nas outras, nesta rodada potencializamos isso, de modo que a obra que inspira um texto é também inspirada numa imagem, numa pintura rupestre, a obra primeva. Veremos, no século XXI, surgirem na internet diferentes consequências artística daquilo que foi produzido na infância da humanidade. Obras de arte não só são eternas, como continuam produzindo efeitos. Curta as diferentes leituras feitas por nossos colaboradores."

4 comentários:

  1. Belo texto autofágico para uma imagem abstratofágica.

    Seja bem-vinda, Cristina, parabéns pela estréia!

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  2. Obrigada, Renato, é um prazer estar aqui, estou adorando poder participar!

    Abraço!

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  3. Não sei o que veio primeiro, o texto ou a imagem!!!

    Muito bom

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