segunda-feira, 10 de maio de 2010

abrir os olhos no escuro


imagem: Maria Matina


abrir os olhos no escuro
parece inútil
o silêncio engolindo as cores
que explodiram durante o dia
avental azul e vermelho
alumínio espelhado
reforma do banheiro
e da cozinha
ficou uma maravilha isso aqui
diga se não ficou?
madeiras, panelas,
toalhas bordadas, batedeira
a água escorrendo da torneira
momento mais filosófico
todo domingo é assim
correria de criança pela casa
- quando casar, sara! -
um telefonema estridente
e a tv com aquele bombril
- puta que o pariu!-
bem na hora do gol
não pegou
nesse ano de copa
haverá promoção de tevê
cê vai vê! e eleição
- é bom esperar, então
antes de comprar uma nova
como tá magro o faustão!
mas a voz continua a mesma
se você não olhar, você vê
quer ver? viu!? hahaha!
e todo mundo riu
porque quem falou essa
foi o tio que faz todo mundo rir
ela ia lá dentro e vinha até a sala
mas lugar de mulher
é na cozinha
é lá que ela fica
e entrando pela semana
almoço, jantar, lanchinho
aquele doce estava tão bom
muito obrigada por nada
no dia das mães é que inventam
uma moda diferente
levar pra almoçar: pizzaria,
churrascaria, macarronada
- ela se sente meio assim
um bibelô, mas sorri também
amém!
ninguém depois lava louça
rodízio no capricho
o domingo no espeto corrido
aquela carcaça largada
nos pratos engordurados
leva também esses ossos
pro cachorro, coitadinho!
ficou lá, ninguém lembrou
do bichinho
só depois que a luz apaga
ela sozinha no quarto
abre os olhos no escuro
mas parece tão inútil
ninguém sabe, ninguém vê
ninguém está ali pra saber

Texto: Assionara Souza

3 comentários:

  1. guilherme preger18 de maio de 2010 10:03

    para os desenhos líricos de matina, só msm a poesia. q lindo poema de assionara souza, captando com delicadeza o cotidiano mais sutil e invísivel. adorei os versos iniciais q definem com precisão o desenho: o silêncio engolindo as cores q explodiram durante o dia...

    ResponderExcluir