segunda-feira, 17 de maio de 2010

Barcos



Imagem por Pilar Benet Domingo

Tem dias em que penso que preciso mesmo é de um barco.

Quando era criança, costumava me sentar na beira do mar com meu pai e jogar pedras nas águas paradas. Costumava comprar um picolé de limão e um suco de laranja sem açúcar, com gelo.

Mais tarde, a vida me afastou do mar e do meu pai, e eu fui boiando por aí. Mas nada parecido com o boiar tranquilo de quem se deita com a barriga para cima, olhos fechados, sorriso no rosto. Era mais um boiar pré-afogamento, apenas a cabeça fora d’água, braços e pernas se sacudindo para evitar os golpes de mar no rosto.

Tem dias em que penso em trocar tudo por um barco.

No meu boiar atrapalhado consegui juntar uma série de coisas: inimigos, mágoas, traumas. Consegui também juntar dinheiro. Pouco dinheiro. Mas o suficiente para um barco. Para algum barco.

Comprei um barco. Algum barco. Mas o mar não era mais o mesmo. As águas não estavam mais paradas, as pedras não gostavam mais de quicar e desenhar círculos perfeitos. Ninguém mais me vendia picolés de limão. Ninguém mais me pedia sucos de laranja sem açúcar, com gelo.

Percebi então que mesmo antes desse barco eu já tinha um barco. Eu só não tinha remos, e meu novo barco veio sem remos, e me cansei de ser um cara que tem barcos mas não tem remos.

Pensei então em pular do barco. Dos barcos. Dos dois. No meio do mar que não é mais parado.

E isso seria, talvez, a primeira remada de minha vida. A primeira e a última.

Tem dias em que penso que tenho é barcos demais.

Texto por Saulo Aride.

6 comentários:

  1. Novata no blog, estreei no seu Barcosterapia... Amei! Não sei se captei bem pq é mt pessoal, mas amei. Quando tiver mais tempo, vou zapear por aqui. Saudaditu, menino!

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  2. Ah! Caneta, Lente e Pincel foi parar nos meus favoritos... E já foi tarde! ;-)

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  3. guilherme preger18 de maio de 2010 09:55

    é preciso saber boiar msm. boiar é o mínimo. melhor do q se debater com risco de afundar. bonita foto de pilar, este barquinho quieto, rente à lâmina plácida de água da baía. e o conto do saulo...

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  4. Belo conto, ainda que me surpreenda que nós, meninos, também sejamos tão criptograficamente "lispectorianos", he he (na verdade ia escrever "belíssimo conto", mas minha porção machona me inibiu!). E apesar do risco de estar viajando na maionese, mexeu comigo no seguinte sentido: abandonando a infância e a adolescência, me esforcei pra enfrentar o mundo munido de certos escrúpulos e acreditando em algumas causas nobres. Aí quando me dou conta, o mundo tá na real é se lixando pro que tentei oferecer, acreditando ser meu melhor, e percebo estar desarmado pra maioria dos perrengues. Então a sensação de segurança começa a depender bastante da perspectiva.

    Hum... Não acho que o conto seja nostálgico... Mas penso que só a maturidade traz certa tomada de consciência, que lança esse tipo de luz soobre o passado. E torna realmente importante uma lembrança até então trivial.

    Bem, confesso que finalmente parei com calma no C,L&P porque o Saulo disse no FB qque havia escrito algo muito pessoal. Confesso que foi pra bisbilhotar. Mas espero passar mais por aqui, afinal o nível é altíssimo (liberando os superlativos!): Maíra, Guilherme e Dani, por exemplo, estão há tempos enntre meus autores prediletos. Ah, e mantennham seus blogs pessoais, galera! (Que as abelhas continuem zunindo alto....)

    Um abraço a todos. E a gente se vê na Baratos, na quarta. 'Té.

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  5. Pessoal, sim .. mas intenso ..
    Como sempre, você surpreende menino!!
    Saudades!!

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