segunda-feira, 31 de maio de 2010

Iluminação

Imagem por Bruno do Amaral


E então ele se foi.


Foi num dia de calor, deixei a janela aberta, as cortinas balançavam em câmera lenta para dentro e para fora do quarto como bailarinas cansadas, às vezes prendendo-se na beirada da cama, às vezes indo para além da sacada. Se alguém passasse enquanto elas estivessem para fora e olhasse para dentro com um pouco mais de atenção, poderia me ver. Não foram poucas as vezes em que pensei nessa possibilidade, em que previ os rostos se desgrudarem do ladrilho do chão para me encontrarem, mas nunca havia acontecido, e tantas foram as vezes em que me cobri, em que dei um salto para trás em susto e medo sem razão que já não ligava, não me perturbava com os passos na calçada logo abaixo do meu quarto, a alguns metros da minha cama.

Mas nesse dia o vento que estava forte de repente se desfez, esquecendo de trazer de volta minhas cortinas protetoras, que ficaram lá estendidas como uma tenda no calor do verão. E ao ficarem estendidas para fora feito uma tenda, deixavam mais luz da rua entrar, e àquela hora da tarde, o sol podia bater no carro estacionado na minha porta, no andar de baixo, e refletir pelo meu quarto, inundando a cama com uma luz quente e lunar. E o calor daquele dia, como o calor de qualquer dia, me deixou um pouco tonta, com a cabeça leve e o corpo pesado, acabei por encher a bacia e levá-la até o quarto, porque poderia me refrescar e continuar deitada, sem fazer nada, sem nem pensar. E foi o que eu fiz, e é preciso dizer que o único espaço livre no quarto é na frente da penteadeira, ao lado da cama, que fica bem em frente à janela, o que não me incomodou em nada, naquele dia, porque já estava acostumada a não ser notada, a não ser vista. E evitava até mesmo de ligar o rádio nessas horas, porque sempre tem algum curioso que olha, não para me ver, mas para saber de onde vem o som. Mas não conseguia pensar em nada além de tirar o vestido e me refrescar ali mesmo, com a luz refletida iluminando as gotas de água que iam se misturando com as gotas de suor que já estavam lá e que evaporavam sem pressa do meu corpo.

Foi o carro estacionado que refletiu o sol, que estava no seu trajeto de verão pelo céu, que levou os raios até os meus olhos, que se esqueceram das cortinas com as pernas balouçando para fora do gradil da sacada, que me cegou, em parte, até eu dar o passo para trás, sair da luz e discernir a sombra que se formava e que, aos poucos, entendiam serem de um homem que não mais caminhava pela calçada, que não mais contava as pedrinhas no chão mas que me via, que me encarava com uma vontade incandescente, aquecedora.

Não movi um músculo, não tive medo ou vergonha, apenas me deixei ficar ali diante dos seus olhos, iluminada pelo sorriso que crescia em seus lábios. Se fosse ele o sol, teria secado meu suor instantaneamente. Se não estivesse o sol brincando de espelhos entre o carro estacionado e o espelho na porta do armário, ele jamais teria me notado. Não tivesse o vento soprado forte uma última vez antes de também sucumbir e desistir, as janelas estariam protegidas pela transparência das cortinas. Não tivesse eu visto tanto desejo nos olhos dele, genuíno desejo, como uma sede permanente e simples, teria me escondido. Mas me vi gostando de estar ali, sendo mais que vista, admirada. Ele não estava me julgando, nem me comparando com outra mulher, estava apenas me olhando. E devo confessar que no pouco tempo dos segundos desse olhar cogitei a possibilidade de convidá-lo a subir, de deixá-lo entrar caso a idéia dele fosse de subir pelo muro e entrar mesmo sem ser convidado. E me vi tirando o restante da minha roupa, e me vi jogando seu paletó para longe, desenlaçando-o do cinto.

Pude me ver amando-o entre a bacia e os espelhos e o encerrar-se da tarde que destituiria o quarto de sua luz. Pude sentir minha pele queimando ao seu toque, quase adivinhei sua língua perseguindo as gotas remanescentes da água em mim.

E num faiscar de uma chave virando, de um motor arrancando que levou consigo a minha lua particular, o momento se desfez.

Ele sorriu baixando os olhos, a mão afastando o chapéu levemente apenas para recolocá-lo no lugar, não virou para trás, e se foi.


Texto por Cristina Moreira

2 comentários:

  1. Uma ótima foto que, de alguma forma, transborda um quê de inverossimilhança, com um texto que a ela se encaixa com perfeição, e que ainda conta com uma dose, na correta medida, de sensualidade.

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