quinta-feira, 27 de maio de 2010

Longe da Glória

Imagem: Bruno do Amaral


Corria o ano de 1954 e nessa época, Niterói era pouco mais do que um amontoado de pessoas que não sabia muito bem o que fazia por ali. Damião era desses. Agora estava com uns bons 60 anos de idade, tinha acompanhado a 1ª e a 2ª Guerra pelos jornais. Damião levava uma vida pacata em Icaraí, o menos pacato dos insuportavelmente pacatos bairros de Niterói. Beirando uma veia cosmopolita que está sempre à margem do que realmente acontece nas grandes cidades, Niterói representava para o Rio de Janeiro o mesmo que Juiz de Fora representava pros mineiros e Ribeirão Preto pros paulistas, exceto por um fator: Niterói era a capital do estado. Uma pequena cidade grande, talvez grande demais para a pequenez e o provincianismo de seus cidadãos. Uma cidade estranha, dessas que cresce sem que saiba o porquê: de repente uma usina, uma fábrica importante, um p ólo de qualquer coisa, enfim. O fato é que há uma parca concentração de prédios e umas poucas lojas de roupas, que não fazem mais do que copiar os modelitos que vieram do Rio de Janeiro da coleção do ano passado, que vieram da coleção de Paris de três anos atrás.

O cenário é um tanto quanto triste porque é maio e chove, mesmo em Niterói. Nessa cidade que não sabe porque veio ao mundo, Damião olha pela janela de sua casa por entre os vidros molhados. Damião vê que a rua é vazia, e que assim não seria se morasse no Rio de Janeiro, com suas praias tão mais bonitas e suas ruas sempre tão cheias de gente....

Ah, Damião pensa... Damião sonha, Damião quer! Desde que viera de Itaperuna, Damião sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro. Ah, a capital do país, o comércio, os shows, o Palácio do Catete, as pin-up girls. Os grandes musicais da Broadway, as peças clássicas, as feiras livres e as praias... Tudo é melhor no Rio de Janeiro, e Damião sabe. Ficou em Niterói, não por escolha, mas por necessidade. Sabia que não teria condições de arcar com um apartamento no Rio de Janeiro, por isso Niterói... Eita mentalidade tacanha de que estar a uma barca de distância é melhor do que morar no subúrbio!

Mas Damião, que olhava a janela desesperançoso quase todas as noites, juntava dinheiro. Sabia que um dia o sonho se tornaria realidade. Sabia que a felicidade imaculada que existia do lado de lá da baía seria um dia sua, só sua. Invejava os cariocas de verdade, que habitavam a cidade do Pão-de-Açúcar, do Corcovado. Morava na capital do Estado do Rio de Janeiro, mas como estava longe do Rio de Janeiro de verdade...

Decidido a fugir da paisagem árida e erma com a qual se deparava todos os dias ao olhar pela janela, Damião conseguiu juntar bastante dinheiro. Um belo dia, conseguiu finalmente se mudar para o Rio de Janeiro. Comprou um apartamento no bairro da Glória, que cá pra nós, era a cada dia menos gloriosa.

Mas Damião não era mesmo um cara de sorte. Seu bairro foi se degradando aos poucos e o Rio de Janeiro foi indo de mal a pior. Com a construção de Brasília, o Rio perdeu muito. Inventaram a tal Guanabara que ninguém nunca soube muito bem explicar porquê. O poder foi pra Brasília, a grana pra São Paulo. Pro Rio de Janeiro, iam sobrando umas poucas migalhas, que tinha que compartilhar ainda com Niterói, que já não era mais capital de nada.

E um belo dia, Damião viu mesmo que não precisava estar em capital de coisa nenhuma; que se Niterói era ruim, o Rio de Janeiro era ainda pior. Não por nada, mas simplesmente pelo motivo de que quanto maior o vôo, maior a queda. Na cidade maravilhosa arrasada pelo destino e pela inveja de um outro Brasil que insistia em querer nascer e se mostrar, Damião era cada vez mais infeliz. E foi então, que alguns anos depois, decidiu novamente optar por Niterói, cidade que nunca pretendeu ser maravilhosa, mas era bonita e era charmosa, nem aquém e nem além do que pretendia ser. E Damião só foi compreender isso tão tarde...

Finalmente, já beirando os oitenta anos, conseguiu recomprar o mesmo apartamento que tinha deixado na cidade pequenina, na mesma rua escura onde chovia nas tardes de maio, no mesmo beco estranho e silencioso de uma Icaraí, que mesmo triste, tentava se impor. Pensou que fosse ser mais feliz assim, que agora poderia esperar a morte no silêncio, no conforto da sua vida pacata, tão pacata como Niterói.

Mas Damião talvez não fosse mesmo um cara de sorte. De um súbito rompante que teve de saudades pelo outro lado da baía, se animou a passear nas terras cariocas. Tinha menos de uma semana que a ponte Costa e Silva tinha sido inaugurada, a imponente ponte Rio-Niterói, como viria a ser conhecida.

Damião foi pela ponte, quis saber a graça do caminho que não era pelo mar. Nem aqui e nem lá. Como o preço a pagar pela dúvida, Damião morreu na curva, no meio do caminho. Entrou para a estatística como o primeiro acidente com vítimas da Ponte Rio-Niterói. Era uma noite chuvosa de maio, Damião tinha deixado acesas as luzes do apartamento.

Texto: Igor Dias

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Texto vencedor do Sétimo Encontro Aberto, com imagem-mote eleita no Sexto Encontro Aberto. Em breve, fotos do último encontro e a nova imagem eleita.

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