quinta-feira, 13 de maio de 2010

O barman e nossas feridas abertas

Imagem: Fabiano Gummo

A mulher:

A temperatura estava por volta dos 26 graus. Ela vestia uma calça preta e uma blusa branca. Se naquela noite fizesse realmente calor, em vez de tentar conter uma ou outra lágrima, em resposta às reflexões oriundas de doses de conhaque barato, estaria secando as gotas de suor das dobras dos cotovelos, arrumando os fios de cabelos que grudavam em seu pescoço. Se fizesse mais calor, estaria ocupada em procurar se refrescar e talvez até desistisse de ficar ali, talvez voltasse atrás em alguma decisão repentina. Se pudesse. Se pudesse refazer a vida: não do jeito que sonhava há dez anos atrás, mas de um jeito mais real, sem analisar demais as coisas que aconteciam. Se fizesse mais calor, não estaria tomando conhaque. Provavelmente tomaria uma cerveja. Ou tequila com suco de laranja, licor de cassis e muito gelo. Também não teria marcado para encontrar a amiga naquele bar.

Porque se naquela noite estivesse realmente com muito calor, talvez acabasse na casa do barman.

Tirou o relógio do pulso e o jogou na bolsa. Sem prestar atenção na hora, abriu o celular Nokia e leu a mensagem que piscava na pequena tela luminosa. Olhou em volta: uma ou outra pessoa que chegava, sem pressa. Alguém esperava outro alguém e pedia um chope pra passar o tempo. E mais alguém não esperava ninguém, escolhia um drinque e ficava ali, pensando na vida. Ela não esquecia de pensamento algum, apesar de não saber se queria ou não esquecer alguma coisa. E essas coisas martelavam em sua cabeça. Como machucados feitos por lâminas de facas. Como um tratamento longo e doloroso na cadeira do dentista.

Portanto, não era em nada disso que pensava quando chegou a amiga.

A amiga:
Trabalhou dez horas naquele dia. Entregou relatórios, traçou objetivos. Mandou e-mails. Desmarcou um encontro. Nem almoçou. Lavou o rosto. Fez xixi. Refez a maquiagem na hora de sair do trabalho. Escondeu possíveis olheiras de alguma provável noite mal dormida. Pegou um táxi, mandou uma mensagem pra amiga que devia estar esperando há uma hora no bar, pagou o táxi. Quase tropeçou no degrau da entrada. Olhou alguém que esperava outro alguém e tomava um chope pra passar o tempo. E mais alguém que não esperava ninguém, tomava um drinque e ficava ali, pensando na vida. Viu a amiga.
 
Deu-lhe um beijo perto da orelha, fazendo um barulho estridente com os lábios, o que, por sua vez, arrepiou a nuca suada da mulher. Pediu um drinque, “o mesmo que ela está bebendo”, mas com muito gelo, disse, apontando para o copo quase vazio. Sentou-se e elogiou a roupa que a outra usava. Arrumou a alça que caía nas costas quase nuas da amiga, a pele oleosa de um dia inteiro de verão quente.
 
E conversaram. Conversaram e beberam a noite inteira. Quase choraram.

Num breve momento, todos prestaram atenção na música que tocava no bar. Dreaming of the time when you are free from all the trouble you're in. Batucaram a mesa, o balcão, o copo. E a amiga bebeu num gole meio copo do conhaque misturado a alguma coisa vermelha que o barman lhe serviu.

O barman:

Acredita que intimidade é: vomitar segurando a mão de alguém. Se duas pessoas vomitam juntas – leia-se: ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo – então, esse é sentido máximo da intimidade. Vomitar no meio da rua, junto a um amigo não tão próximo assim, bom, essa será uma prova de fogo. Ou ambos se tornarão melhores amigos, ou jamais se suportarão novamente. Não suportarão nem mesmo trabalhar juntos. O cheiro do vômito é outro teste. Não querer vomitar enquanto ajuda alguém que está vomitando também é uma prova de sensibilidade e intimidade. Por isso as enfermeiras, por exemplo, são pessoas em quem se pode confiar.

O barman sabe que é romântico, mas nunca encontrou alguém que merecesse seu romantismo. Nunca suportou o cheiro do vômito alheio. Na verdade, nem o dele próprio. Mas o barman quase não bebe. Se bebesse muito, estaria na profissão errada.

Simplesmente não dá pra conciliar. E ele precisa trabalhar.

A hora:

Quatro horas e quarenta e oito minutos. Acabou a música.

O diálogo:

    - Acabou a música.
    - Que bom que você veio.
    - Claro que eu viria.
    - Acho que bebi demais.
    - Eu também.
    - Só tem a gente no bar.
    - Que engraçado. Como nos velhos tempos.
    - Gostei do barman.
    - Gostei dos drinques dele.

Silêncio.

    - Tá muito calor, não tá?
    - Tá sim. Vamos embora?
    - Quer dormir lá em casa?
    - Acho que preciso vomitar.
    - Eu também.


Texto: Danielle Costa

4 comentários:

  1. Amiga, adorei. E, inevitavelmnente, lembrei da gente.

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  2. guilherme preger18 de maio de 2010 09:47

    amo esses contos com mudanças bruscas de perspectiva, monólogos interiores incompletos, dores apenas sugeridas de feridas invisivelmente abertas. o q não foi dito é mais importante do q foi escrito. é como no desenho do gummo, as linhas apenas esboçam e sugerem e a imaginação faz o resto. txt e desenho cortados a faca...

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  3. Bom mesmo passear aqui pelo C,L&P. Me deparar com textos pelos quais não se passe incólume. Conforme apontou o Guilherme, a vida não cabe nas palavras, mas grandes talentos como a Dani estão sempre iluminando esse oceano imenso, essa existência represada pela impossibilidade... Bem, a vida às vezes parece mais uma série de impossibilidades do que outra coisa... Mas voltando à literatura: é isso aó, soltem os rojões, que venha logo seu próximo conto! Bj.

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