quarta-feira, 5 de maio de 2010

Oferenda


Imagem por: Diego Kaeli

matar um boi por dia
é muito,
é como comer
numa churrascaria.

matar um boi por dia
é demais,
o que se deseja
é um pouco de paz.

matar um boi por dia
é um exagero,
é preciso saborear
o tempo com seus temperos.

matar um boi por dia
é insano;
é alimentar a cadeia
equívoca do auto-engano.

matar um boi por dia
é carnificina,
é espalhar carcaças
em cada esquina.

matar um boi por dia
é infrutífero,
não dá nem para colher
as virtudes de ser íntegro.

matar um boi por dia
é sanguinolento,
melhor seria a coragem
de dizer: eu não aguento!

matar um boi por dia
é um sacrifício.
o ideal é expiar outro bicho
e voltar ao início,

limpo de toda sangria.
é possível
poupar um boi por dia
e insistir com alívio:

dar o dia pelo dia
é o que basta,
é a oferenda
justa, sem demasia.

Texto por: Guilherme Preger
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"Neste mês celebramos um ano de Caneta, Lente & Pincel. Por isso, resolvemos fazer uma brincadeira. Se nosso conceito é produzirmos obras de arte inspiradas umas nas outras, nesta rodada potencializamos isso, de modo que a obra que inspira um texto é também inspirada numa imagem, numa pintura rupestre, a obra primeva. Veremos, no século XXI, surgirem na internet diferentes consequências artísticas daquilo que foi produzido na infância da humanidade. Obras de arte não só são eternas, como continuam produzindo efeitos. Curta as diferentes leituras feitas por nossos colaboradores."

2 comentários:

  1. Tourada espanhola, máquina de fliperama, telefone celular, mural de recados ou uma cama de motel para sado-masoquismo?
    Sempre o sacrifício de matar um boi por dia, o excesso (o borderline?), o não sentir o tempero (pois é rápido, é de microondas?). As máquinas que não nos param, para "ralar" o boi de forma mais rápida e eficiente.
    O tempo, como seria bom... Simplesmente viver numa caverna, caçar um boi por semana e ter uma cama vermelha macia, com almofadas pretas, num "paix à deux"... e não usar os alfinetes.

    Parabéns aos dois. Ótima mistura.
    Era a leitura que eu não esperava ter hoje, tanto a (re-)leitura da pintura rupestre como o ler de um texto. Um prazer ao fim do meu dia... Obrigado.

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