domingo, 23 de maio de 2010

UMAS E OUTRAS



Vídeo de Pedro Simão

Tem aquele conto do Veríssimo (ou seria uma crônica? Não me lembro mais). Talvez se contasse a história do pneu furado e citasse o conto do Veríssimo como referência ficasse tudo bem e ela não ficaria arrasada.

Puta que pariu, ela vai ficar arrasada. Tenho que pensar muito bem em como dizer isso. Não é que eu não a ame. Quer dizer, na verdade não amo mais como antes. Quer dizer, amo ainda, mas não de um jeito que dê pra continuar com ela sem ver a outra. Se pelo menos pudesse ficar com as duas. Por quê? Não é uma ideia tão absurda assim... Mas a outra não ia gostar, mesmo que ela topasse, e ia ser uma situação muito esquisita: segundas, quintas e sábados com ela, o resto com a outra? Nem eu seria capaz de dar conta disso. Será que é sempre assim? Será que nunca dá pra fazer diferente? Se você se apaixona por outra, tem que deixar a uma que você ama?

Ela vai querer morrer, e, mesmo que eu não queira mais ficar com ela, e sim com a outra, não quero que ela queira morrer. Até porque não aconteceu nada de grave. Quer dizer, aconteceu sim. Sendo bem honesto, traição é traição (“romance é romance, amor é amor e um lance é um lance”, como já dizia o funk do qual reclamo tanto que minha filha de só cinco anos goste de ouvir). Meu deus, o que vou fazer com a minha filha? Dizer: papai se apaixonou por outra, ama você mas vai ter que deixar a mamãe? Se bem que existem mais filhos de pais separados pelo mundo do que filhos de pais casados, e ninguém morreu, então talvez, se puder vê-la com frequência, vou dar conta do amor de que ela precisa.

Até porque não aconteceu nada de grave. Foi só um beijo. Uns amassos, na verdade, não só um beijo. Noite de lua cheia, o mar quebrando na praia, já dizia a música (por que pra tudo na minha vida tem que ter o raio de uma música?). Não precisava ter tirado a aliança. A outra sempre soube que eu era casado. Não que a gente tenha alguma vez conversado sobre isso, mas eu sei que ela sabe, e fica por isso mesmo. Dou sorte de ela querer ficar comigo mesmo assim. Que merda que eu sou por pensar isso. A outra lá, se submetendo a uma situação esdrúxula, eu lá largando a aliança na areia pra ser respeitoso com a outra e depois não conseguindo mais achar, e ela, a uma, em casa, preparando o jantar. Como sou idiota!

Mas, ao mesmo tempo, vou evitar como?! Foram só uns beijos e já tenho vontade de casar com a outra, levar a outra num tour pelo mundo, colocar a outra dentro do meu veleiro e sair mar afora (e a porra do trabalho, vou fazer o quê com a porra do trabalho? Que ideia estúpida! Por que a paixão é sempre tão estúpida?).

É melhor contar a história do Veríssimo, pneu furado, graxa do macaco, aliança pelo ralo. Se ela duvidar, eu digo que o Veríssimo escreveu a história pensando em mim. Não, não digo nada, não vai fazer o menor sentido, essa história é antiga. Tomara que ela não conheça a história do Veríssimo...

Não! Vou terminar meu casamento, pronto, sentar com calma, depois que a menina tiver ido dormir, e contar que me apaixonei por outra mulher, que gosto muito dela, mas que preciso viver isso e que amo a nossa filha e que adoraria se ela me deixasse ver a menina sempre que eu quiser e não ficasse com restrições vingativas de só final de semana de quinze em quinze dias.

Agora já era, porta de casa, pega a chave, cara mais lavada do mundo, vamos lá, vamos lá, respira fundo, abre a porta.

- Papai, papai, tava esperando você pra jantar! Mamãe fez uma comida bem gostosa pra gente. Lê uma história pra mim?



Texto de Maíra Fernandes de Melo

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