sexta-feira, 11 de junho de 2010

Banhados pela Luz da Luminária


Luminária feita com caixa de CD: Wilson Jequitibá
Foto por Pedro Botafogo.


Cigarro pendendo no canto da boca. Sentou em posição de índio na soleira da porta. Um longo tempo olhando nada na rua, nem a rua. Duas tragadas fundas. E lançou fora o toco. Com a mesma mão coçou a perna. Com a mesma unha arrancou a casquinha da ferida no braço. Não doeu. Sangrou. Ainda não estava seca. Com a ponta do dedo estancou o sangue. Daí chupou o dedo. Levou o braço até a boca, chupou a ferida, fruta mínima, úmida. Saliva, o melhor mertiolate, pensou. Depois esfregou a mão toda no braço cheio de pêlos afim de secá-lo. Quantos canalhas fazem suas canalhices invocando o amor próprio. Um carro velho cuja marca para ele era uma incógnita passou, talvez retornando ao passado de onde surgiu um dia. Ele não prestou atenção devida, ou não havia ninguém dirigindo o automóvel? Tirou o isqueiro do bolso. Puxou da caixinha prateada outro dos cancerígenos e acendeu. Me perdi eu tô perdida com ele não com ele não podia não podia não podia. Ah o prazer indescritível, o corpo todo agradecia. Um novo longo tempo olhando o nada. Baforando. Ao fim, tentou acertar a nova guimba na anterior. Não era bom de mira. Coçou o mesmo lugar de sempre, a batata da perna, porém dessa vez a coceira se manifestava na esquerda, não na outra como era costume. Sabia porque a direita era com a que chutava, era com a que pisava em lugares desconhecidos para chamar a sorte. Eram pernas que apesar da função comum de auxilia-lo a caminhar exerciam cada qual outras funções específicas. Pensava nisso enquanto roia a unha que tinha acabado de usar para arrancar a casca do machucado que há três dias fora uma espinha gorda de pus e sangue. Lembrou. Como esquecer o amarelo claro mal-cheiroso, a espinha sendo espremida, explodindo no espelho do banheiro do escritório onde trabalha como auxiliar administrativo? Trabalhava, aliás. Eu sofro muito com isso eu preferia não ver o que eu vejo viver o que eu vivo me dá muito medo e sempre me dá dor de cabeça minha cabeça quase explode no começo minha mãe achava que eu estava louca mas daí eles começaram a ver que o que eu falava acontecia acontecia. Tinha sido demitido. Por isso estava em casa à tarde, de varde. Cansado da posição de índio se ajeitou de um modo que pode esticar as pernas. Ergueu os braços se torcendo, espreguiçando. Bocejou. Olhou para o céu no exato momento em que ele acinzentou. Foi como se o clima tivesse mudado ao comando de seu corpo. Pingos gordos e lentos de chuva desabaram de nenhures. Sentiu frio, um sopro suave na nuca, mas não se mexeu, pareceu-lhe tolerável. Vestia apenas camiseta branca e calça jeans. Calçava all star. Protegido pelo teto da varanda não se molhou. A temperatura no entanto despencava. A rua deserta. A rua deserta eles merda. A rua deserta.

Opa, nem tão deserta assim. PI pinto inimigo PA pinto amigo PO pinto oficial PL paga lanche PP pinto pai. Dois polacos calçando all stars, vestindo camisetas e jeans se aproximavam com passos largos, enérgicos. Um deles trazia uma bolsa feminina à tiracolo. Não sou uma pessoa organizada o que se vê por fora é diferente do que sou por dentro fugi. Nenhum dos dois rebolava nem carregava ares de afetação. Pelo contrário, eram até rudimentares. Ao passarem por ele o encararam. Ele baixou um pouco a cabeça os cumprimentando. A dupla não retribuiu o breve aceno. A sua passada a chuva caiu com mais intensidade. Os sujeitos abriram um guarda-chuva, girassol negro no meio da tarde negracinzentada. Dobraram a esquina. Fomos contratados para te encontrar Ana E me matar? Matar? É Então por que não te matamos ainda? Porque vocês gostam de mim vocês foram com a minha cara e não gostam de quem contratou vocês. O deserto novamente não fosse pelo canto de uma pássaro que entrou na sua cabeça e zás saiu. O isqueiro estava no chão exatamente onde havia deixado após ter acendido o último cigarro. Tirou da caixa mais um, foi um pouco difícil porque o gás estava no final, mas conseguiu botar fogo na ponta e chupar tragando. Fumou esse mais rápido que os outros, estava angustiado. Olhou para a batata da perna. Decidiu suportar o comichão sem usar as unhas para coçar. Teu pai está preocupado. Voltou a erguer a cabeça e ali estava uma moça, um pintinho escaldado, desprotegida, desprotegido.

Num átimo ele ficou de pé. Os seios vazando da camisa rasgada. Ela respirando mal como trouxesse um animal ferido dentro da caixa torácica. Um de seus olhos um pouco inchado, o outro azul como há muito ele não via no céu da cidade. Quantos canalhas fazem suas canalhices invocando o amor próprio pai. A moça não conseguia falar entupida de espanto que estava sua boca. Os braços com escoriações. As coxas com hematomas crescendo de dentro do shorts. Devia ter saído de casa pela manhã antes da frente fria ter vindo aportar ali. Tinha no máximo 25 anos, não mais. Menos talvez. E suplicava socorro. Ele não teve tempo de escolher, imediatamente estava acolhendo a moça. Já dentro de casa ofereceu uma cadeira para que ela sentasse. Foi à cozinha, preparou um copo com água e açúcar. Ela bebeu, ele roeu as unhas e mais não havia. Ele foi até o quarto e voltou com uma toalha, um conjunto de moletom e meias. A moça colocou o copo na mesa, ficou em pé. As imagens por causa de seus olhos ardidos de choro e porque a tarde caia e nenhuma luz tinha sido acesa lhe chegavam um tanto borradas, mesmo assim pode reparar bem que havia inúmeros retratos de família espalhados pelo espaço olhando friamente para ela. Filhos da puta eu não vou com vocês eu não volto Calma menina assim você vai se machucar Calma o caralho seu porcos de merda eu não vou voltar ninguém vai me fazer voltar Segura ela ela tá possuída Enfia a porrada nessa vaca. Ele lhe indicou o banheiro dizendo que ficasse à vontade. A moça entrou e só encostou a porta, sem trancar. Olhou-se no espelho e deu uma fungada. Lavou o rosto e enxugou. Tirou camisa, shorts, tênis, meias. Ficou apenas de calcinha. Enxugou o corpo, os cabelos castanhos. Vestiu a calça. Olhou seus peitos no espelho, são bonitos, pensou. Depois riu, lá isso eram horas de pensar essas coisas. Que sorte ter encontrado esse moço na varanda, era a única casa com alguma vida por perto. Ela ainda estava assustada, a respiração sem muito controle. Respirou fundo uma, duas vezes. Só agora a moça começou a sentir de fato o frio que tomara conta da cidade. Quando foi vestir a parte de cima do conjunto escutou duas batidinhas na porta acompanhadas de um tá tudo bem aí? Respondeu que sim e rapidamente vestiu a blusa. Abaixou a tampa da patente e sentou para colocar as meias. Ajeitou os cabelos e saiu do banheiro segurando as roupas molhadas. Ele a esperava com um saco plástico para guardá-las. Eu consegui pegar a bolsa dela O Sr. Bastos vai ficar puto com a gente como é que a gente não consegue segurar uma menina? Pelo menos eu consegui pegar a bolsa dela E daí grande merda Sem a bolsa a arma os documentos o dinheiro ela não vai muito longe Gostosa daquele jeito ela vai onde quiser. Ela colocou as roupas no saquinho dizendo que não serviriam para mais nada. Ele riu levemente do jeito dela mas imediatamente se reprimiu achando que a risada pudesse ter soada inoportuna. Sentia-se desconfortável com uma estranha dentro de sua casa. A tarde já tinha caído por completo e estava escuro ali. O meu carro está aqui perto é velho mais é um carro eu só preciso cruzar a fronteira com o Paraguai e sumir sumir eu sou jovem tenho um corpo bom sou inteligente os capangas do meu pai não podem não podem me achar não quem sabe esse cara vai comigo. Ele foi até o canto da sala onde estava uma luminária com forma semelhante a de uma aranha enorme. Apertou o interruptor e a aranha de luz verde-amarelada os banhou. Eu sou Ana, prazer, disse ela. Ele segurou sua mão. A moça começou a respirar melhor.

Texto: Luiz Felipe Leprevost - perfil

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