segunda-feira, 7 de junho de 2010

Genaro

Imagem: Rudy Trindade.


Tá duro güentar o patrão reclamando das minhas cerâmicas. Já falei que não me desconcentram, que eu posso colher café de dia e fazer cerâmica à noite. Mesmo assim ele ameaça proibir, mas eu já disse pra ele:

- Não obedeço.
- Quebro esse teu forno.
- Faz isso que eu quebro teus cornos.
- E você tem condição de me ameaçar, lavradorzinho de merda?

Ele foi embora. Tinha razão, eu não podia ameaçar ele mesmo, afinal, ele era meu patrão e eu um lavradorzinho de merda. Mas me vinguei, fiz uma cerâmica que era eu enrabando ele. Coloquei no quarto do homi, que voltou bufando:

- Tá no olho da rua!
- Vai tomar no olho cu.

Ele partiu pra cima de mim, me esbofeteando. Me chamou de vagabundo e pilantra. Ele é grande e encorpado e eu apanhava demais. Eu só fazia rezar Pai Nosso e pedir a ajuda de Nosso Senhor enquanto tentava me esquivar dos bofetões. De repente, tudo ficou devagar... Eu via o braço do patrão descendo... na minha direção... em câmera lenta... Saí da frente dele, agarrei seu braço e o apontei pra parede. Depois tudo acelerou de novo e ele deu com a mão na alvenaria. Ficou se contorcendo de dor. Virei pra janela e rezei um Pai Nosso pra agradecer e enquanto eu orava fui acertado por trás, pela mão do desgraçado que restava tava boa. Voltei a rezar e Deus apareceu. Ele era a imagem e semelhança de um bicho estranho. Ornirrinco, acho que é o nome. Só que com dois metros, bípede e com polegar impostor. Tudo congelou, só eu e ele nos mexíamos.

- Meu filho, mas como você é burro... – ele disse benevelente – Fico feliz por me agradecer, mas como vira de costas pro seu inimigo antes da contenda se resolver?...
- Perdão, Senhor.
- Olhe, mais uma burrice dessa e não intercedo por você. Só apareci porque gosto muito das suas cerâmicas e quero que você as continue produzindo, então é melhor que esteja vivo e funcionando.
- Obrigado, Senhor. Posso pedir mais uma coisinha, então?
- Diga, meu filho.
- Eu tô no olho da rua a partir de agora, então não terei onde morar, vou ter que ir pra alguma outra fazenda, trabalhar o dia inteiro, não vai restar muito tempo pra fazer cerâmica... Se o Senhor pudesse dar um jeitinho na minha vida...
- Hmm... sei... você quer vida boa pra ter tempo pra artesanato.
- Vida boa não Senhor, posso passar o dia inteiro produzindo as arte.
- Mesmo que você molde todo o dia, meu filho, ainda assim será vida boa. Você virará artista, usará drogas e curtirá a vida quando não estiver com a mão na massa.
- Não, não Senhor, eu não gosto dessas coisas não.
- Mas vai passar a gostar, pode ter certeza.
- Não vou não Senhor.
- Só se você for burro, meu filho. Eu criei o mundo, inclusive a maconha, o cogumelo, a trombeta... Quem é você para recusá-los? Eles são o supra-sumo da minha obra, meu filho.

Silêncio.

- Não os despreze.

Deus estalou os dedo. A senzala reformada na qual eu vivia virou uma suntosa mansão. O meu chefe agora estava com roupas esfarrapadas e eu com camiseta, calça preta, tênis aistar, paletó e um óculos com a lente pequenininha.

- Pronto, meu filho, agora você é um artista consagrado. Já tratei de incluir nos principais jornais do país matérias sobre o seu trabalho. Adiantei um pouco o tempo pra facilitar as coisas, então você já fez várias exposições, já leiloou peças e já ganhou dinheiro suficiente pra ter isso tudo aí que você tá vendo. Olha, é melhor eu fazer um inventário dos seus bens. Tá tudo no Banco Satãder, ok? Não, o nome não é à toa, mas tenho que reconhecer que meu concorrente é bom em administração de instituição financeira. Eu sou péssimo nisso, porque fico com pena dos correntistas, cobro juros não muito extorsivos... uma tragédia! Os bancos que eu administrava acabaram todos falindo ou sendo vendidos, pelo menos parte do capital, pra Belzebu. Enfim, anota aí: Fundo Satãder PIBB de ações: quarenta mil reais; Fundo de Ações Vale e Petrobras: cento e vinte mil reais; CDB: quinhentos e quarenta mil reais – como um bom homem de origem e alma simples, seu perfil é conservador; Fundo Satãder protegido: cento e vinte mil reais. Na sua conta corrente, você tá com dez mil. Depois vou enviar por e-mail o número da sua conta, a agência, essas coisas. Você também tem um carro do ano, um apartamento num bairro chamado Lagoa, no Rio de Janeiro, e um fusca, porque fusca é cool. Nessa fazenda tem cogumelo alucinógeno e trombeta por todo o lado. No criado mudo do seu quarto tem maconha e cocaína. Preste atenção no que vou dizer: você pode usar todas as drogas da sua propriedade, menos a cocaína, entendeu? Nada de substâncias sintéticas, porque não fui eu que fiz. A folha de coca criei só pro pessoal dos Andes conseguir resistir melhor à altitude.

Não entendi muito bem esses negócio de Satã que ele falou não. Só pesquei que eu tenho um monte de dinheiro guardado com o Coisa Ruim. Realmente, Deus escreve direto com linhas tortas. Não dá pra entender por que Ele foi deixar meu dinheiro com Satanás. Mas Deus é Deus, né, e Ele sabe o que faz.

Vou te contar, o que me deixou curioso mesmo foi esse negócio das droga. Nunca fui disso, nunca, nunca mesmo. Nunquinha. Nem sequer já passou pela minha cabeça, até porque eu achava que não era coisa de Deus. Contudo, se o Próprio me falou pessoalmente que é o super-sumo da sua criação, então tenho que experimentar, né?

Tomei chá de trombeta e de cogumelo e fumei maconha. Quando usei a primeira, tive a impressão de estar num pesadelo. O cogumelo me deixou em harmonia com a natureza. E depois de dar um tapa na erva esculpi minha melhor cerâmica. Na gaveta, a cocaína me encarava, nariz com nariz. Tocou a campainha.

Várias pessoas chegaram para uma festa que eu não sabia que tinha marcado. Também não sabia que conhecia aquela gente toda que me tratava como íntimo. Eles trouxeram e cheiraram, em menos de duas horas, mais cocaína do que eu tinha na minha gaveta. Várias vezes me ofereceram e, numa delas, cheguei a aceitar, mas desisti em cima da hora. Tinha que respeitar os mandamentos de Nosso Senhor.

Como essa, aconteceram muitas outras festas, com umas moça bonitas e inteligentes. Eu ficava meio acanhado com a beleza, o tamanho do decote e inteligência dessas mulheres lá do Rio de Janeiro, de Curitiba, Porto Alegre, Vitória e até Portugal, tudo artista, que vinham parar aqui em casa. Mas sempre lá pelas duas da manhã, depois de um montão de cerveja, cachaça de marca e maconha eu ficava mais solto. Teve um dia que güentei não. Caí de cara nos peito de uma dama. Ela tava com uma blusa de alcinha e um decote mais generoso que a Madre Teresa de Calcutá. Ela me deu um tapa na cara, mas rindo. Fiquei na dúvida se ela queria que eu continuasse ou parasse. Quando você não sabe o que fazer, qual o pecado em realizar o que é melhor pr` ocê? Me afundei ainda mais naqueles peitos maravilhosos e acabamos indo pro quarto.

Estava tudo muito legal na cama, com a mulher mais bonita que já tive, quando de repente ela tirou da bolsa um negócio meio plástico e falou pra eu colocá-lo em volta do Genaro. Não ia fazer isso com ele, né? Imagina, o bicho lá apertado, coitado! Não ia conseguir respirar e acabava morrendo, dando gangrena, e eu nunca poderia ter filho. Bati o pé que não colocaria aquilo. Ela, então, decretou o fim da safadeza. Droga! Fiquei insolvável. Cabisbaixo. Até que abri a gaveta do criado mudo e lá estava ela. Branquinha, mais branca do que a Branca de Neve, prometendo me trazer de volta o ânimo perdido. Mas Deus já me proibira. Eu podia experimentar, reexperimentar, usar e abusar de tudo daquele paraíso que era minha casa, menos a cocaína, a droga que nunca me atraiu, mas que depois da proibição, se tornou mais tentadora até do que os peitos da boasuda que acabava de levantar da minha cama.

Resolvi mandar um e-mail pra Deus. Eu não güentava mais, precisava cheirar pó, nem que fosse um pouquinho. Ia escrever pra deus@todopoderoso.gov.un e perguntar, afinal, qual seria a seqüência de usar a tal da droga sintética. Acabei não precisando do e-mail, ele estava online no MSN e logo me respondeu: “o correto não é seqüência, mas conseqüência. E a conseqüência é que ficarei magoado”.

Essa resposta foi suficiente pra que eu, ao menos até o próximo porre, tirasse da cabeça a idéia absurda de usar justamente a única coisa que Deus me proscreteu. Até o próximo porre.

A última coisa que pensei, na festa seguinte, já com o caninho no nariz, antes de inalar, foi: “se não queria que eu usasse, por que desgraça deixou na minha gaveta. Só pra mim tentar? Pois tá aí, o preço por me tentar.”

Certamente a mágoa dele não o maltratará tanto quanto a tentação fazia comigo. Diabos! Por que instigar o desejo do sujeito por uma coisa que ele não pode usar? Eu, se não quisesse que alguém usasse algo, a última coisa que ia fazer era colocar aquilo no criado mudo do cidadão. E quase todo mundo que eu conheço concorda. É isso. Usei, tá usado. Agora, dá licença, que vou dar uma mijada.

- Estou magoado com você. Te dei tudo, só pedi um limite e você o desrespeitou. Estou muito triste contigo. Doravante, rompemos relações. Agora, corte de mal – disse Ele, sentado no vaso que eu pretendia usar. E encostou seus dedos mindinhos.

Eu não queria cortar de mal com Deus. Apesar de discordar Dele num ponto, ainda O achava um cara legal. Tá pra nascer alguém com quem eu concorde com tudo. Mas, mesmo assim, mesmo discordando Dele sobre uma coisinha só, eu o amava, amava acima de todas as coisas, desde garotinho. Não à toa, na minha infância me esforcei sempre pra dar os melhores agrados ao padre, Seu representante. Todos devemos ser agradecidos a Ele, afinal, Ele criou tudo, inclusive eu e você. E enquanto eu ainda pensava essas coisa, o Todo Poderoso aproximou os dedos mindinhos unidos de mim, com um olhar ornitorríntico intimidador, que celebrava toda sua autoridade – a última oração foi sugestão de um amigo artista de berço. Não resisti e, num impulso, cortei de mal com Deus, que desapareceu pra nunca mais voltar. Caí em prantos. Um amigo e uma proibição a menos... Colocando na balança, o saldo... não sei. Vida que segue.

Texto: Renato Amado

9 comentários:

  1. Caraca, mermão, você se supera ! Maluquice maravilhosa e criativa, muuuito bom !!!

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  2. E a foto poética, forte, cores intensas: parabéns aos dois !

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  3. guilherme preger9 de junho de 2010 22:42

    grande imagem do rudy, sujeita a mil interpretações. e tinha q cair nas mãos do renato q está reinventando a literatura do absurdo. o interdito e o desejo ou o desejo do interdito? e q aditivos foram necessários para criar esta porraloquisse de conto, com sua linguagem trêfega?

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  4. Orgulho da mamãe.Éisso aí a vida segue.
    Bjs,adorei

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  5. hehehe!
    Muuuito bom. A imagem além do enquadramento impressionante, tem uma variedade de nuances, de cores, sensacional.

    Agora...

    "Detalhes técnicos da falha permanente:
    Erro do Dê Ene Ésse: Nome de domínio não encontrado"

    Tá pior que o SAC da Net.


    Delivery to the following recipient failed permanently:

    deus@todopoderoso.gov.un

    Technical details of permanent failure:
    DNS Error: Domain name not found

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  6. Eu sei..mantenho a amizade...e a proibição vejo como opção...

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  7. Fala anônimo!

    Não entendi. A proibição seria um preço a pagar pela opção pela amizade, é isso que vc tá dizendo?

    Um abraço.

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