segunda-feira, 14 de junho de 2010

Porre Coletivo

A notícia passou a circular durante a madrugada. Revoltados com o aumento dos impostos sobre as bebidas, donos de botequins em todo o estado do Rio, decidiram fechar suas portas, numa inusitada greve geral. Um a um. Desde os de luxo até o mais pé sujo. Todos foram expulsando os últimos boêmios e cerrando as portas. O Jobi, os Belmontes, o Bip-bip, os Manoeis & Joaquins, o Picote, o Jóia, o Pereira, o Bar das Kengas. Todos fecharam.
Por volta das sete, pequenos grupos de bebuns se reunen nas portas dos botecos. Os que sabiam, foram conferir; os outros, entram em desespero.

8h – Os matutinos nas rádios e na tv falam da situação inusitada. O ministro da fazenda mantêm-se irredutível.
8h15m – Os primeiros botecos começam a ser arrombados. O Comandante Geral da PM resolve aumentar o efetivo da tropa.
8h20m – Um trem da Central é destruído. Um boteco é incendiado na Penha.
8h30m – A Associação dos Proprietários de Botecos diz que o boicote vai prosseguir.
8h50m – Efetivos da PM e da CORE começam a patrulhar as ruas do Rio e fazem as primeiras prisões.
9h09m - Um grupo de bebuns fecha a Linha Vermelha, mas são imediatamente repelidos pelo Batalhão de Choque. O grupo vai, então, para a Avenida Brasil.
9h14m – Um bebum se suicida, jogando-se nos trilhos do metrô, próximo à Estação de Maria da Graça. O tráfego metroviário da cidade para.
9h19m – Um bebum é morto por uma bala perdida, durante um confronto com a PM, próximo ao Complexo da Maré.
9h35m – Confrontos entre bebuns e a PM são verificados em diversos pontos do Rio.
9h49m - Os helicópteros das principais estações de rádio anunciam que o trânsito na cidade havia dado um nó, devido aos bloqueios nas principais vias.
10h04m – O primeiro supermercado é saqueado por bebuns à procura de bebidas alcoólicas, em Realengo. Logo, em outros pontos da cidade, ocorreriam saques. Os estoques de bebidas se esgotam como num passe de mágica.
10h19m – Os bebuns recebem apoio de traficantes de todas as facções, que passam a comandar ataques a ônibus, supermercados, escolas e, lógico, à polícia.
11h – Quiosques na beira das praias, primeiro, e bares e restaurantes, depois, passam a ser saqueados.
11h04m – O prefeito vai ao rádio pedir para que os donos de botecos voltem atrás e reabram os seus estabelecimentos. Mas esses se mantêm inflexíveis. “Vamos mostrar quem tem o poder neste país.”, disse o presidente da Associação dos Proprietários de Botequins.
11h19 – As notícias vinda do Rio, faz a Bolsa de Valores de São Paulo ter queda histórica. Investidores estrangeiros começam a debandar.
11h42m – O Governo do Estado do Rio convoca a imprensa para uma entrevista, enquanto hordas fortemente armadas de bebuns circulavam pela cidade, espalhando o pânico e a desordem.
11h55m – Os jornais divulgam que já passa de cem o número de mortos e de 1 mil o número de feridos. Incêndios, depredações e saques continuam acontecendo por toda a cidade.
12h14m – O Comandante Geral da PM anuncia que a polícia havia perdido o controle da situação.
12h44m – O governador finalmente é obrigado a pedir auxílio ao Exército.
13h05m – Os jornais mostram cenas inacreditáveis de destruição e vandalismo pela cidade. Os principais alvos são os supermercados e prédios públicos.
13h30m – O presidente fala em cadeia de rádio e tv, pedindo calma aos cariocas.
14h10m – O número de mortos chega a 1.260. Os hospitais públicos estão lotados. Tropas federais começam a patrulhar a cidade.
14h30m – O prefeito decreta estado de calamidade.
14h50m – A queda extraordinária leva a Bolsa de São Paulo a encerrar o pregão. Enquanto isso, as principais bolsas do mundo despencam.
15h01m – No momento em que o dólar e o risco-Brasil batem todos os recordes, o presidente recebe um telefonema da Secretária de Estado Norte Americano querendo saber a real situação do país, em especial o Rio de Janeiro. Um jornalista flagrou o seguinte diálogo entre eles:
Washington - Então, aconteceu?
Brasília – É o que parece, excelência.
Washington – Como vocês puderam deixar acontecer, depois de tanto esforço?
Brasília – Mas, excelência...
Washington – Vocês têm até a noite para consertar esta situação ou enviarei os marines.

Do meio da tarde até a noite, os confrontos entre a população e a polícia prosseguem em vários locais da cidade. O mais insólito de todos ocorreu na Vila Mimosa, onde um grupo de putas foi para a Praça da Bandeira enfrentar o Batalhão de Choque. Fortemente armado, o grupo de mulheres, usando peças íntimas, conseguiu derrubar alguns policiais e botar para correr os restantes. “Sem pinga não dá pra trabalhar, porra!”, disse uma delas para um canal de tv. “A gente tamu (sic) defendendo o nosso trabalho!”

O Exército foi chamado. Soldados de vários batalhões desceram dos caminhões já disparando contra o grupo, que fugiu em direção à Francisco Bicalho. Mas voltou minutos depois, quando os soldados se preparavam para partir. O pequeno batalhão de putas atacou o comboio. Um cabo, um sargento e um recruta caíram mortalmente feridos. Imediatamente uma chuva de balas desabou sobre o grupo, matando as mulheres em questão de segundos. Quando tudo parecia ter voltado ao normal, uma puta doidona saiu da Vila Mimosa, atirando a esmo. Mas foi fuzilada na Radial Oeste por homens da CORE.

18h33 – O secretário de segurança decreta toque de recolher.

Por volta das 19h, mais de cem mil bebuns de todas as classes, incluindo artistas e intelectuais, descem em passeata a Rio Branco. Enquanto isso, autoridades dos governos estadual e federal se reúnem em Brasília com a Associação de Donos de Botequins, para dar solução ao problema.

19h20m – Conflitos ainda acontecem em vários pontos da cidade. O Arcebispo do Rio vai à tv pedir para que pessoas doem bebidas alcoólicas para bebuns em crise de abstinência.
20h – O presidente anuncia a queda do ministro da fazenda.
21h19m – Termina a reunião em Brasília. A partir daquela noite, as bebidas alcoólicas não seriam mais taxadas. E o produto chegaria aos estabelecimentos comerciais a preços mais baixos. Os donos de botequins comemoram.
22h – Os primeiros botequins voltam a funcionar no Rio, apesar do toque de recolher. Os que haviam sobrevivido, os que não estão presos e não têm que enterrar os seus mortos, correm para os botecos mais próximos. Todos lotam. Há falta de chope e de cachaça. Em alguns, há rodadas de chope de graça e batucada.
23h19m – O presidente volta a falar em cadeia nacional, destacando o espírito pacífico do povo brasileiro.
23h30 – Com os botecos ainda cheios, os estoques de bebidas são reabastecidos com urgência.
2h30m – A paz reina no Rio.
texto: Júlio Corrêa











Fotografia: Marcos Sêmola, inspirada no texto.

3 comentários:

  1. Excelente, Júlio! Um dos melhores textos do CL&P. Se liberassem as drogas também poderíamos celebrar a paz às 2:30 h.

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