quinta-feira, 10 de junho de 2010

Posto 8

Imagem por: Marcos Semola


Não se olha o sol direto
ou queimará a retina;
mais prudente seria
ver sua luz sob cortina,
ou encará-lo ao seu pôr,
embora imensa a bola
de fogo, a claridade
se espraia por toda a orla,
e se dispersa em miríades
das mais sutis matizes
de cores esmaecidas
em tempos talvez felizes.
Na praia, a areia branca era
a promessa de queda livre
de escoriações e traumas,
como se isso fosse possível.
Os furinhos dos tatuís
que se escondiam do mundo
eram talvez pressentimento
de que o mar ficaria imundo;
na ainda clara água a onda vinha,
depois outra e então mais outra,
precisava-se mergulhar fundo
e emergir depressa pois louca
era a urgência pelo ar
e o pavor das correntezas,
mesmo se o desejo fosse
deixar-se levar sem certeza;
ou correr pelas barracas
para perder-se da família,
afinal um aprendizado
de como escapar de armadilhas
dos afetos que os pais enredam
em torno de todo filho.
Havia o mate, o picolé
e o biscoito de polvilho.
Havia o guarda-sol, a esteira,
a bóia e a piscininha.
Ouvia-se o papo dos adultos
sobre as tarefas comezinhas.
E o que dizer das pipas
trêmulas na liberdade
aparente, pois amarradas
seguramente ao barbante
lambuzado de cerol -
cortante como o real
seria olhar reto ao sol,
pois pode ferir a retina
ou rasgar o ócio e a rotina.



Texto por:

3 comentários:

  1. De propósito ao acaso me fizeste parar
    Na página pronta pra sentir
    Depois ler, deglutir
    No início razão descortina-se
    Contra-luz ou meia nada importa
    Claro está no encontro de lembranças
    Tão perto e distantes.
    Havia o sol lá no fundo
    Somos um e outro, todos
    Personagens libertos da trama
    Na clara água, onda vem e vai
    Certeza cortante da vida.

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