terça-feira, 29 de junho de 2010

Sonhei que Você Morria

De repente entrei num túnel. Era um túnel largo e comprido, com as paredes avermelhadas e uma luz incidente. Só que as paredes não eram paredes. Eram como um campo de força, uma zona magnética ou algo do gênero.

Foi naquela hora que eu percebi que tinha morrido.

Essa sensação, sensação não, essa certeza “caralho, eu morri” é uma coisa muito estranha, vou te dizer... Um dia vocês vão todos passar por isso, e eu já adianto que é uma das coisas mais esquisitas por que eu já passei. Quando me dei conta de que estava morto, rolou uma vontade de parar. De não seguir em frente pelo túnel. De dar meia volta e tentar achar a Terra de novo. Mas algo em mim me impelia a seguir em frente. Acho que era o desejo, o profundo desejo de descobrir o que é que tinha depois do túnel.

Andei firme, com passos decididos, aquele túnel todo. Era enorme, parecia que não ia acabar nunca. E a tal luz no fim do túnel, a clássica, o lugar comum, não, essa luz não existe. Não esperem por ela. De uma hora pra outra, o túnel acabou. Acabou e eu fui jogado num vácuo quilométrico. Devem ter se passado uns vinte minutos em que eu caía assim, sem nada pra me segurar, a gravidade me empurrando pra baixo. Quer dizer, fora da Terra não tem nem minuto nem gravidade, mas essa é a melhor maneira de vocês entenderem o que eu tô querendo dizer. Achei que aquela queda livre não ia acabar nunca. Mas por um lado foi bom. Eu sempre quis pular de paraquedas, mas nunca tive coragem, ficava com medo de que o paraquedas não abrisse e eu morresse estatelado no chão. Mas ali, agora, eu já estava morto mesmo, então a onda era curtir a queda. Gente, é incrível! Eu realmente não sei se isso acontece com todo mundo ou se cada um tem um jeito diferente de morrer, mas, se acontecer com vocês, vocês vão lembrar do que eu falei e é muito divertido.

Confesso que no meio da queda me deu um medinho: e se a minha avó estivesse certa? E se existe mesmo céu e inferno? Pra cima o céu, pra baixo o inferno. Puta que pariu, então tô indo pro inferno!!!! Por que eu tô indo pro inferno???? Sempre fui um cara tão legal!! Será que é porque eu sempre tive problemas em acreditar? Mas porra, se o homem desenvolveu a razão, é justamente porque ele tem que perceber que esse papo de fé é uma maluquice. Caralho, por que eu não escutei a minha avó? Por que eu não fui à missa quando ela pediu? Agora vou me foder, vou pro inferno. Merda!

O nervoso durou até o fim da descida. Quando a queda estava acabando, foi como aterrissar em um planeta desconhecido. Não cai nem nada. Alguma coisa fez com que eu descesse aos poucos, até fincar os pés no chão. Pensem no homem chegando na Lua. Então, foi meio assim que aconteceu. Lá embaixo, tinha uma placa. Uma espécie de compartimentação do inferno por língua. Quem falasse inglês, pra direita. Polonês, pra esquerda. Russo, mais pra esquerda ainda. Alemão, pra direita também. E por aí vai. Achei o caminho pra quem falava português e segui por ele. Vou dizer uma coisa pra vocês: a eternidade é enorme. Gigantesca. Andei que nem um louco, achei que não fosse chegar nunca. Foi quando, no fim do caminho, vi uma pequena entrada. Uma portinha bem pequenininha. Na hora pensei, que porra, não vou passar por aí nunca. Aí me dei conta de que ao lado da portinha tinha um aviso “tome esse comprimido que você atravessará a porta”. Porra, será que o Lewis Carrol morreu antes de escrever Alice e deixaram ele voltar pra escrever o livro? Porque era igualzinho àquela passagem do Alice. Ou então alguém que morreu contou pra ele como é que era, assim como eu tô fazendo com vocês agora. Enfim, tomei o raio do comprimido, fiquei pequeno que nem uma formiga e atravessei a porta. Quando cheguei do outro lado, já estava do tamanho normal de novo. Um enorme descampado branco, todo branco, não dava pra ver parede, não dava pra ver teto, não dava pra ver nada, de tanto que a imensa quantidade de branco ofuscava o meu olho. Uma voz em português começou a falar. Antes de contar o que ela disse, tenho que dizer que a voz parecia aquelas traduções simultâneas de evento internacional. Era num sotaque horrível. Tava na cara que a pessoa que gravou aquilo não era nem brasileira nem portuguesa. E tinha um som metálico, maquinetado. Porra, os caras podiam fazer a coisa melhorzinha, né? Eles são a eternidade, ora bolas...

- Bem vindo.
- Oi. Quem tá falando? Eu tô no inferno?
- No inferno? Claro que não. Não existe isso de céu e inferno.
- Ah, não? Então por que que eu desci?
- Bom, porque a nossa vibração é bem próxima à do magma terrestre. Aí alguém inventou, um dia, que era melhor descer do que subir. Um paralelismo, entende?
- Ahn...
- Na verdade, encare como uma piada. Todo mundo que desce acha que tá indo pro inferno. Aí chega aqui e a gente diz: Voilá!
- Ah, vocês são mesmo muito engraçados...

(Porra, a maior sacanagem... Quem foi que teve essa ideia estúpida? Quer dizer que deus é um piadista? Mas é óbvio que eu não disse isso pra voz. Até porque essa coisa de ficar falando com uma voz que você não vê estava me incomodando um pouco...)

- Antes de você seguir em frente, você tem direito a fazer um pedido. Todo mundo tem. Pode ser ver parente distante que morreu, pode ser conhecer algum ídolo do passado que esteja por aqui, enfim, você escolhe. O que você quer?

(Caralho, então era verdade esse papo que tem coisa depois da morte? Eu não ia nunca imaginar isso! Pensei durante muito tempo. Mas como eu estava na eternidade, acho que a voz não se preocupou, porque não interrompeu meu pensamento, nem ficou me apressando. Ela não tinha nada pra fazer mesmo, porque na eternidade não tem tempo...)

Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que o que seria mais útil da minha parte seria contar isso que eu tô contando agora pra vocês. A voz não achou uma boa ideia. Tentou me dissuadir. Tentou me convencer a escolher alguma coisa mais pessoal. Mas eu não quis. Sempre tive um espírito de coletividade, então achei que essa era a melhor atitude a tomar.

A voz acabou concordando comigo. Fui parar numa salinha, com um ectoplasma digitador. Preciso dizer: na eternidade não tem computador ainda. Estranho, né? Eles escrevem numa máquina Thompson. Vai entender... Até perguntei o porquê pro carinha espírito digitador, mas ele fingiu que não me ouviu (continua fingindo, até agora, mesmo quando eu tô falando dele nesse texto).

Fato é que é isso. Fiquem ligados. Quando vocês começarem a cair, não achem que vão pro inferno. Isso é só uma piada idiota que os caras fazem pra sacanear humano. Não tem isso de céu e inferno, a voz já me disse. O que acontece depois eu não sei. Vou descobrir agora. Se depois tiver como contar mais alguma coisa, eu volto e conto. Me desejem boa sorte!

*****

Num dia chuvoso de outono, em São Paulo, Brasil, ela acordou. Não entendeu muito bem o que tinha sonhado, mas sentou na cadeira em frente ao laptop e começou a escrever. “Vão me achar completamente idiota” – pensou. “Fora que esse texto não tem nenhuma qualidade técnica, nenhum rebuscamento de linguagem muito menos um interesse literário mais profundo. É um conto estúpido e uma merda, basicamente”.
Mas sentou e escreveu mesmo assim...

Texto: Maíra Fernandes de Melo


Imagem: Maria Matina, inspirada no texto

7 comentários:

  1. Alguém achou legal esse desenho super tosco? Achei horroroso.

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  2. Eu achei do cacete! Expressivo! Gostei mesmo.
    Diego Kaeli

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  3. algum problema com o q é tosco? os desenhos da matina são sempre expressivamente líricos e este não foge à regra. q rosto fantasticamente verde, acabrunhada no contraste com uma vermelhidão ao mesmo tempo opressiva e envolvente. o contraste das cores se dispersa nos nuances coloridos da roupa como as muitas possibilidades de sentido. e ainda tem o detalhe do líquido no copo derramando... e o igualmente fantástico conto da maíra, desafiadora narrativa post-mortem, chega msm a incorporar a linguagem "tosca" ou "menos rebuscada" sem "interesse literário" mais profundo para gerar um conto irônico q está longe de ser "estúpido" ou "merda". sendo tosco ou não, rebuscado ou não, profundo ou não, é sempre melhor insistir e "sentar e escrever mesmo assim". parabéns às duas!

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  4. Super expressivo!
    Adorei a ilustração!
    O contraste das cores está ótimo.

    Ah! E, às vezes, se não for para acrescentar, é melhor não dizer nada.

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  5. ou ao menos diga alguma coisa sem estar anônimo. dar opinião desconstrutiva sem dar a cara a tapa é comportamento mesquinho...

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  6. Gente valeu pela defesa!! hehehe, mas a arte não foi feita para agradar e sim para causar efeitos e isto, esse desenho tosco ou não, causou!

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