segunda-feira, 12 de julho de 2010

Amanhecer na Cama

Começa com Reginaldo chegando à casa da namorada. Vemos a garota secando o cabelo. A mãe da menina convida-o a esperar no quarto.

“Se quiser usar o computador, checar seus emails...”

“Obrigado Nilce. Farei isso mesmo! No mais tudo bem? Como foi o passeio na chácara do tio Nilo ontem?”

“Foi ótimo! Estava muito agradável. Você não sabe como é silencioso. À noite era possível até ver estrelas.”

“Puxa, que delícia. Isso é raro hoje em dia. Na próxima vez, iremos junto.”

“Com certeza! E o tio assou um carneiro delicioso. Aquele sabe preparar um bom churrasco.”

“Que beleza! A carne de Carneiro é muito saborosa. Ei, vou ali no computador então, Nilce.”

“Ok! Enquanto aviso a Sílvia que você chegou.”



Entrando no quarto, Reginaldo tem uma decepção. Encontra sobre o lençol verde da cama, o livro “Amanhecer”, de Stephenie Meyer. Um raio de sol, sarcasticamente, entra pela janela.

Assim que é informada pela mãe que o namorado adentrara ao seu quarto, Sílvia desespera-se. Aparece com cabelos molhados e secador em punho. Sem dar trégua, o rapaz dispara logo seu julgamento:

“Não acredito que você lê isso!” – Apontando para o livro.

“Eu ia te falar hoje, comprei esta semana.”

“Sei! E quanto aos volumes um, dois e três que encontrei aqui embaixo da sua cama? Sílvia, você têm até o álbum de figurinhas e o pôster do Robert Pattinson!”

“Reginaldo, você está me criticando como se isso fosse um crime, algo terrível! Poxa, é literatura como qualquer outra. Você está tão furioso só por não gostar do gênero.”

“E...Eu..Eu não sou nem parecido com o Robert Pattinson! Meu Deus! Que desgraça descobrir isso.”

“Como você é exagerado!”

“E todo aquele papo de literatura, Kafka, Salinger...É tudo invenção?”

“É verdade uai! Olhe ali na estante, te mostro. Agora porque sou fã de Crepúsculo não posso ler outras coisas? Reginaldo, você é muito preconceituoso!”

“A Stephenie Meyer escreve muito mal! E, além do mais ela deturpa o conceito mitológico dos vampiros! Você não concorda? Poxa, se você gosta disso não sei mais nada. Nã..Não acredito nem mais nos seus comentários aos contos que escrevo! Não te conheço mais Sílvia! Não te conheço! Estou olhando para você agora, e não estou te vendo!”

“Que drama!”

“Drama mesmo! Tragédia! Catástrofe! Me dá o livro aqui. Quero dar uma olhada.”

“Você está muito obcecado por estas coisas que lê Reginaldo. Falta leveza na sua vida. Você devia ler umas coisas mais pop de vez em quando. Vamos assistir ao filme? Eu tenho aqui também...”

“Pare! Você só estraga mais a cada nova confissão. Vou jogar este livro pela janela.”

“Está louco? Se fizer isso, acaba tudo!” – Diz isso apontando-lhe o secador.

“O que? Termina o namoro?”

“Claro! Olha, eu não ia falar, mas já que estamos lavando roupa suja, eu acho decepcionante namorar com um sujeito que brinca na fazendinha virtual do Facebook!”

“O que? Nã...Não acredito no que estou ouvindo! E aquele papo que era bonitinho? Tudo balela?”

“Bonitinho para menina né? Pô, um marmanjo brincando com hortinhas e bichos virtuais! Você não percebe o quanto é ridículo? Tenho vergonha das mensagens que você envia para todas as pessoas da lista pedindo tábuas ou informando sobre um galpão novo finalizado!”

“Não podemos realmente continuar! Se você escondia este julgamento, deve haver muito mais que nunca comentou! Não vejo mal algum em ter uma fazenda virtual.”

“Um escritor; inteligente; sério, brincando de Tamagotchi? Broxante!”

“O que é Tamagotchi?”

“Um tipo de... Ah, esquece. Olhe, acho melhor você ir embora.”


Um silêncio angustiante paira no quarto. A câmera foca e desfoca a imagem do pôster, colado atrás da porta. Nele, Robert Pattinson observa a cena preocupado. Reginaldo arremessa o livro pela janela. Sílvia grita. O Amanhecer cai sobre a cobertura de Eternit de um estacionamento fazendo um estrondo. Reginaldo vai embora. Dona Nilce se preocupa. E Sílvia grita no corredor do edifício:

“Desgraçado! Não volte mais aqui! Não quero olhar mais para a tua cara!”

Entra uma cena de transição: Reginaldo na rua entrando no seu carro. Está com expressão preocupada. Óculos de grau torto. Um vento bagunça seu cabelo.

Algumas horas depois e já está em casa. Caneca de café ao lado do computador. Acessa o Facebook. A última cena que vemos é Reginaldo plantando girassol na fazendinha virtual e dizendo aos botões:



“Girassóis dão bastante pontos! Preciso de um novo trator!”

Texto por
Fabiano Vianna

Imagem por Bruno do Amaral

5 comentários:

  1. Uma certa carapuça serviu. Ou seja, preciso escoder melhor os meus livros da coleção Crepúsculo.
    Texto: ótimo.

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  2. rs...
    Fabz, Fabz,
    diálogos muito bons, hein, guri! E o legal é que tem um tom meio de "dublagem" na voz do narrador. Eu gosto disso.

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