sexta-feira, 23 de julho de 2010

Cefalópolis


Ilustração: Marcelo Damm

Curitiba, final da tarde. Começa num café, cada pessoa com um celular. Estão todos concentrados em seus aparelhos e ninguém conversa. São mesas pequenas, de madeira escura e não há casais. Há uma sobreposição sonora de efeitos e musiquinhas chatas. As pessoas apertam os botões de maneira frenética, ininterruptamente. Nenhum deles olha para a câmera e nem percebe em nós, que vamos adentrando ao salão lentamente. Os garçons servem café nas mesas lá dentro, mas ninguém bebe. As xícaras vão se sobrepondo. Morro de xícaras. Os garçons parecem neuróticos, com os olhos esbugalhados. Andam freneticamente pelo salão, obedecendo às ordens de uma voz superior, uma divindade cafezística que clama lá de cima: “Mais café na mesa sete! Ficou pronto o pedido da mesa nove! Levem o café do rapaz de azul. Mais café na máquina! Queimem os grãos! Queimem os grãos!” Lá dentro os freqüentadores também estão hipnotizados por seus celulares. Alguns sorriem como se lessem piada. Outros, indignados como se teclassem com a morte. Há também uns com laptop. Estes normalmente ficam lá nos fundos, onde é mais escuro. A câmera demora chegar até lá e a iluminação é mais precária, pois está escurecendo. Rostos azuis iluminados pela luz da internet. Digitam bastante. Mantra de teclas justapostas. Alguns sorvem o café enquanto escrevem. Olhos vidrados. Um outro olha para a tela impassível como se não acreditasse nela. Nenhuma destas pessoas parece se importar com os garçons que voam sobre as mesas, equilibrando bules metálicos reluzentes em grandes bandejas escuras. Corte e estamos agora num outro café. As mesas são diferentes, de mármore. Parece cena de filme noir, letreiros em néon e decoração vintage. Os grandes ventiladores do teto estão desligados. Neste café há apenas um rapaz, sentado rente ao balcão. Luz dura e diagonal. Os doces a venda são bem maiores do que no café anterior. O rapaz usa gravata e terno marrom. Na vitrola, um jazz ácido. Chega uma mulher muito elegante usando vestido vermelho da mesma cor do batom. Sua pele é alva e os cabelos negros como a asa da Graúna. Casaco de pele branco nos braços. “É permitido fumar aqui?” “Hoje sim” Surgem letras na tela. Efeito de edição. Tipografia antiga tipo máquina de escrever. Surge uma luz intensa e o filme falha tipo película antiga. Volta a cena do primeiro café. A tela do laptop de um dos clientes mostra um polvo ou Kraken. Talvez seja uma cena do filme “20.000 Léguas Submarinas”, de 1954. Ou não. Porque o polvo possui um celular em cada um dos braços; tentáculos. Efeitos de filme velho e voltamos à cena dos dois no balcão do café noir. O rapaz tira do bolso um maço de papéis amassados. Diz “Este é meu livro. Finalmente terminei” e pergunta se ela pode ler. “São contos. Alguns de mistérios, outros de amor. Gostaria muito de saber sua opinião” “Que lindo! Porque não me mandou por email?” Corte de novo e estamos numa lanchonete chamada Rolê. Neste lugar fazem a maior esfiha da cidade. É quase um bolo de massa com bastante recheio. Sempre peço a de carne. Às vezes de presunto e queijo. Depende da temperatura. A câmera vai passando pegando detalhes. Tipo documentário noturno. Na parede, um relógio com símbolo Yin Yang. Alguns sujeitos parecem ser “habituês”. Conversam intimidades com os atendentes que usam avental laranja. Mesma cor do acento das cadeiras. Metade das pessoas são contratadas por nós. Penso o que será das pobres lanchonetes que vendem esfiha aqui por perto. Não há como competir. O Rolê é tipo Chicago Bulls com Michael Jordan. E o Jordan é a esfiha, claro. Às vezes não entendo quando venho aqui e vejo alguém comendo pastel ou coxinha. Coitados. Alguém precisa avisá-los. Talvez este filme sirva para isso. Ah, esqueci de mencionar a maionese, elemento único e característico também. O Xandão tá dando um close. Ela tem um gosto azedo. Não se parece nem um pouco com a Hellmann´s das nossas casas. Dizem que é caseira, mas eu não sei dizer o certo. A fórmula é mais secreta que Coca-cola. O Rolê é daqueles bares que conservam um clima de cidade de interior, onde os senhores sentam rente a calçada para assistir o movimento. Na TV, curiosamente passa luta livre. Eu adorava assistir quando era novo. As máscaras são fantásticas; coloridas. O programa dá um close num cara da platéia que não presta atenção nos lutadores porque manda um SMS. Voltamos ao Rolê. Na mesa lá de trás um casal de estudantes do Positivo confere o gabarito da prova e a menina fica bem envergonhada quando chegamos perto para filmá-los. Praticamente roxa, coitada. Ela possui um celular bem high-tech, revestido por uma capa que simula um chocolate. Corte e mostramos um pouco de rua. Este percurso, entre os cafés e o Rolê. Extremos geográficos e conceituais. As pessoas dentro dos carros no sinal. Alguns no celular. Micromundos. Buzinas; mantra urbano. Corte. Flash de imagens rápidas como que zapeadas num controle remoto. Imagem acelerada das pessoas entrando e saindo de um café; mandando mensagens no celular, escrevendo no laptop e os garçons estricnados equilibrando bules. O beijo cinematográfico do casal no café noir. Um lutador de luta livre dando um salto mortal nas cordas e derrubando o adversário índio. Símbolo de Yin Yang. O gabarito da prova dos estudantes. Alternativas a) b) c) d) e) todas estão corretas. Novamente a cena do polvo com vários celulares. Um zoom revela que num dos tentáculos há uma xícara de café. E no outro, uma esfiha. Michael Jordan. Agora vemos a imagem de um rapaz quase transparente andando na rua. Ele usa uma máscara de luta livre. É possível ver detalhes da cidade através dele. Tipo um fantasma. Ele atravessa algumas paredes, passando entre os cômodos das casas. Família jantando, mocinha dançando. Papagaio, cachorro, hamster. Corte e ele está no primeiro café. Escreve num laptop. Enquanto digita vai readquirindo sua consistência. Deixando de ser etéreo. E o filme termina com um senhor de terno e gravata olhando diversos monitores. Estes monitores mostram cenas do primeiro café. Vários ângulos captados pelas câmeras. Ele parece o dono do mundo e possui vários braços. Com um deles segura o microfone e grita: “Queimem os grãos! Queimem os grãos!”


Texto: Fabiano Vianna

2 comentários:

  1. DEMAIS!
    A descrição muito bem trabalhada, como sempre!
    A história empolgante!
    Parabéns!!!!

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