sexta-feira, 16 de julho de 2010

Laços




A carta nunca chegaria a ser entregue. Mas era preciso escrevê-la com a máxima urgência. Era preciso tirar de dentro de si aquele sentimento sufocante de não ter feito o que deveria; de não ter sido sincera o suficiente; de não ter se dedicado com mais vigor àquela outra parte que não deixava de ser uma extensão dela mesma. Não tinha a mínima ideia de como começar a carta. Se as saudações iniciais seriam autênticas ou se recairia, como das outras vezes, a uma pantomima já ensaiada que mais ainda contribuiria para distanciá-los. Atravessou toda a noite saltando entre as camadas simbólicas do sonho para reflexos de consciência que reiteravam a necessidade de, assim que acordar, assim que o dia começasse, depois do café, depois que tivesse posto todas as coisas em ordem, a mesa limpa, as plantas encharcadas com a água que sustentaria suas formas e cores na casa – depois de tudo isso, sentar com calma e iniciar a carta que, sem mais adiamento, deveria ser escrita. Os passos pela casa; a mão aquecida na caneca com o chá; a dança da fumaça embaçando as lentes dos óculos e a trama de pensamentos perseguindo-a em constante inquirição. Era a alma que se voluntariava. Para que o corpo retomasse a calma, deveria responder a essa inquietação e aquietá-la. Voltar enfim à sua solidão ensaiada. Uma espécie de desculpa que por si só já denunciava o não pertencimento às urgências do mundo. O seu mal jeito em lidar com qualquer acontecimento que a retirasse de seu cômodo espaço de não existir fora da redoma em que poderia ao longo dos dias abstrair os mínimos sentidos que lhe chegavam. A carta teria necessariamente que dizer dessa sua incapacidade. Perdoe-me, meu querido, por ter lhe causado tanto constrangimento... E nem era bem isso. O que aconteceu a eles fora mais que constrangimento. Espécie de evidência em não conseguirem uma aproximação verdadeira – ainda que o coração tanto quisesse entregar-se sem quaisquer palavras. A carta por certo jogaria mais distância entre os dois. Por certo aumentaria ainda mais o frio silêncio que encapava todos os gestos até que a fúria acumulada explodisse e – como de fato acontecera – eles tivessem que proferir todas as palavras e sentimentos escondidos, disfarçados, engasgados. Disseram demais um ao outro e foi urgente a fuga. Urgente o afastamento estratégico, para que o corpo, que registrara todos os confrontos, se sentisse novamente livre. Nenhuma explicação fora suficiente. Somente a mágoa. E um grande amor que não sabia se expressar pois não era em sua natureza um amor construído, maleável, passível a esclarecimentos. Era um amor imposto pelos laços maternos. Um amor que nascera com eles e que com eles crescera numa cumplicidade veloz e secreta. O mesmo amor que muito depois os faria experimentar a delicada lâmina da dor consentida. Como se já estivesse antecipadamente implícita essa doação plena de se deixar ferir, pois de outro modo não seria um amor em sua plenitude. Eram irmãos e não estavam velhos o suficiente para somente aceitar que tudo fora do modo que deveria ser. Talvez fosse nesse exato ponto que a carta deveria insistir. Tudo fora como deveria ter sido. Depois de ter acolhido todas as lembranças do particularíssimo álbum correspondente à vida em comum que tiveram, ela quedou-se um tempo longo da manhã deixando as lágrimas caírem sobre o papel e aceitou por fim a incapacidade de dizer o que seu coração pedia que fosse confessado. Ainda não era tempo. A carta inconclusa trazia uma caligrafia borrada e muitos pontos riscados, parte pela covardia de expor o que lhe vinha à mente, outra ainda mais pela constatação de que essas coisas que os dois carregavam consigo não se traduziriam jamais em palavras. Eram fios intricados pelo tempo e só ao tempo caberia desenlaçá-los. Rasgou o papel com uma tristeza silenciosa e real. Depois, olhou as mãos tingidas de tinta como a prova de um crime que não tivera coragem de cometer. Respirou fundo. Voltou para as abstrações do dia.


Imagem: Diego Kaeli


Texto: Assionara Souza

3 comentários:

  1. Diferente do muito que você escreve. Denso feito café preto. Gostei.

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  2. Pois é, esse é o barato de traduzir outras linguagens. Esse texto parece que já estava dentro da imagem; eu só puxei de lá.


    ;oB

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